Série de acidentes no Pantanal expõe vácuo na fiscalização e elos políticos de mineradora de irmãos Batista

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Uma barcaça carregada com cerca de mil toneladas de minério de ferro afundou no leito do Rio Paraguai na manhã do último sábado, 31 de outubro, na região do Porto Gregório Curvo, distrito de Porto Esperança, a cerca de 90 quilômetros de Corumbá. O acidente mobilizou equipes do Ibama, do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) e da Marinha do Brasil, que monitoram de perto os desdobramentos e a segurança da área afetada.

Imagens registradas logo após o incidente mostram o momento em que os tripulantes pularam da embarcação para se salvar enquanto ela submergia. De acordo com informações confirmadas pela Capitania Fluvial do Pantanal, todos conseguiram sair a tempo e não houve feridos. Cerca de duas horas após o naufrágio, vídeos compartilhados nas redes sociais registraram uma grande mancha avermelhada cobrindo as águas próximas ao porto, gerando preocupação na comunidade local e entre ambientalistas.

Embora o licenciamento ambiental do porto seja de competência estadual, gerido pelo Imasul, o Ibama acompanha formalmente as investigações e notificou a empresa responsável para que apresente as ações tomadas por meio de seu Plano de Contingência para Incidentes. A autarquia federal esclareceu que o espalhamento de resíduos de minério ou seu acúmulo no leito do rio pode alterar as propriedades da água e sufocar ovos, larvas e espécies aquáticas que habitam o fundo. O órgão ponderou, no entanto, que a turbidez avermelhada e a presença física do material não configuram contaminação química imediata, embora as condições do ambiente determinem se haverá ou não a liberação de metais pesados na bacia hidrográfica.

A mineradora LHG Mining declarou publicamente que a embarcação pertence a uma empresa parceira que presta serviços logísticos e assegurou que está cooperando integralmente com as autoridades para apurar as causas do naufrágio. Paralelamente, técnicos do Imasul iniciaram a coleta e análise laboratorial de amostras de água coletadas em pontos estratégicos e áreas de controle do rio para precisar o nível de impacto e a qualidade dos recursos hídricos.

Outro ponto de atenção destacado pelos órgãos de fiscalização envolve a futura operação de reflutuação e resgate da estrutura. Conforme o Ibama, a remoção da barcaça e das mil toneladas de ferro exigirá monitoramento rigoroso e técnicas específicas de engenharia para evitar que a carga depositada no fundo seja novamente revolvida, o que provocaria um segundo ciclo de sedimentação e dispersão de resíduos ao longo do curso do rio. A Capitania Fluvial do Pantanal instaurou um inquérito administrativo para apurar as causas do acidente e identificar as responsabilidades estruturais ou operacionais envolvidas.

Série de acidentes no Pantanal expõe vácuo na fiscalização e elos políticos de mineradora de irmãos Batista

A sequência de acidentes ambientais e logísticos na hidrovia do Rio Paraguai colocou sob forte escrutínio as operações da LHG Mining em Corumbá, braço extrativista da holding J&F, controlada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista. Em um intervalo de apenas 60 dias, a infraestrutura e os ecossistemas sul-mato-grossenses sofreram dois duros impactos: o violento choque de um comboio contra os pilares de sustentação da ponte da rodovia BR-262, em 31 de agosto, e o naufrágio de uma barcaça carregada com mil toneladas de minério de ferro em Porto Esperança, no último sábado, 31 de outubro.

As ocorrências, que geraram interrupções no tráfego rodoviário internacional e cobriram as águas pantaneiras com uma densa mancha avermelhada, deram tração a uma série de denúncias que apontam para uma conduta reincidente de negligência socioambiental por parte das empresas do grupo econômico. A LHG Mining assumiu os ativos da Mineração Corumbaense Reunida (MCR) em 2022 após a Vale optar por vender a operação, em um movimento de mercado que, segundo fontes do setor, foi acelerado pelo desgaste da antiga concessionária diante do passivo acumulado e de multas milionárias aplicadas pelos órgãos fiscalizadores. No entanto, o histórico recente sugere que a troca de comando resultou em uma flexibilização prática da vigilância do Estado.

O padrão de desrespeito às comunidades e à malha urbana não é inédito à atuação dos irmãos Batista em Mato Grosso do Sul. Em Campo Grande, moradores vizinhos ao frigorífico da JBS enfrentam há anos uma batalha jurídica devido ao forte mau cheiro exalado pela planta industrial, acumulando processos judiciais que tramitam sem uma resolução definitiva. A transferência desse modelo operacional agressivo para a sensível Bacia do Paraguai triplicou o volume de extração mineral da LHG, saltando para 12 milhões de toneladas anuais, mas gerou reclamações imediatas sobre a segurança e a falta de retorno financeiro local — deputados estaduais já provocaram o Ministério Público para investigar indícios de queda injustificada nos repasses de royalties de mineração (CFEM) ao município de Corumbá, justamente no período em que a produção explodiu.

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