Em pleno século XXI, a sociedade testemunha avanços históricos na ampliação dos direitos das mulheres. Seja no mercado de trabalho, na ciência ou no debate público, a busca por equidade e respeito conquistou espaços antes inimagináveis. No entanto, o avanço civilizatório encontra barreiras profundas quando olhamos para a representação política. Embora as mulheres componham a maior parte do eleitorado, a urgência por um número expressivo de lideranças femininas ocupando cargos eletivos esbarra não apenas em barreiras estruturais, mas também no preconceito explícito e na tentativa de silenciamento.
Esse cenário de hostilidade ficou evidente com as recentes declarações do influenciador Paulo Figueiredo. Ao utilizar o alcance de suas redes sociais para atacar a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o comunicador proferiu falas de cunho amplamente misógino, afirmando que “mulher vota estatisticamente muito mal” e classificando a inclusão feminina na política como uma suposta “ideia marxista”. Esse tipo de discurso, propagado para milhares de seguidores, faz mais do que atacar uma figura pública específica: ele minimiza de forma deliberada a relevância de todas as mulheres e tenta deslegitimar a capacidade cidadã de metade da população do país.
A reação a esse episódio demonstrou que a violência política de gênero não pode ser normalizada, independentemente de coloração partidária. A senadora Soraya Thronicke (PSB) agiu com a firmeza necessária ao rebater as ofensas e sair em defesa de Michelle Bolsonaro. Em uma postura de solidariedade multipartidária, Thronicke destacou que “independente de quem seja a mulher atacada, se mexeu com uma, mexeu com todas”. Ao afirmar de maneira contundente que o influenciador “defeca pela boca”, a parlamentar expôs o absurdo de teses que tentam rebaixar a autonomia das cidadãs e oficializou um pedido à Procuradoria-Geral da República (PGR) para frear a disseminação desse tipo de ataque nas redes sociais.
A fala da senadora Soraya joga luz sobre uma verdade inconveniente: a ofensa direcionada a uma mulher na política atinge a coletividade de todas as brasileiras. Tolerar o argumento de que mulheres devem apenas acompanhar o voto de seus maridos, ou de que a sua inclusão nos partidos é um erro tático, significa retroceder a um período anterior ao direito ao voto.
O fortalecimento da democracia brasileira depende, obrigatoriamente, da ampliação e da proteção das mulheres nos espaços de poder. Discursos que buscam reduzir a capacidade intelectual, eleitoral e de liderança feminina não são apenas opiniões políticas; são tentativas de manutenção de privilégios e de exclusão que a sociedade moderna não pode mais admitir. Contra o retrocesso propagado em telas de celulares, a resposta continuará sendo a ocupação de tribunas, plenários e urnas por mulheres determinadas a governar o próprio destino e o do país.