Conta-se a história de uma mulher que se apaixonou por um par de sapatos vermelhos. Eles eram lindos, vivos, irresistíveis. Um dia, ela deixou de lado seus confortáveis sapatos marrons, calçou os novos e começou a dançar.
Quando quis parar, os pés estavam inchados. Os sapatos já não saíam. Ela pediu ajuda a um lenhador, mas o socorro chegou tarde demais: na versão trágica dessa história, ele cortou suas pernas, e ela morreu.
Há muitos aprendizados nessa lenda. Um deles é que a mulher poderia ter tirado os sapatos depois da primeira dança. Poderia guardá-los ao lado dos marrons, descansar os pés e voltar a calçá-los no dia seguinte. A alegria dos sapatos novos não precisava caber inteira em uma noite.
Mas ela dançou tanto que os pés incharam. Quando quis parar, já não conseguia tirar os sapatos. A história termina de forma trágica, mas há uma pergunta que fica: e se ela tivesse parado depois da primeira dança?
Poderia ter descansado, cuidado dos pés e voltado a usar os sapatos vermelhos no dia seguinte. O prazer de calçá-los não precisava acabar naquela noite.
Quantas vezes nós, mulheres, sentimos que precisamos escolher entre o conforto conhecido e aquilo que desejamos? E, quando finalmente nos permitimos querer algo, quantas vezes achamos que precisamos viver tudo de uma vez, antes que a oportunidade desapareça?
Talvez haja outro caminho. Podemos experimentar o novo sem abandonar o cuidado conosco. Podemos mudar de ideia, fazer uma pausa e recomeçar. Os sapatos marrons não precisam ser uma prisão. Os vermelhos também não.
É com esse espírito que nasce o Estado de Mulher: um espaço para falar de escolhas, direitos, trabalho, saúde, violência, sonhos e da vida como ela é. Para ouvir mulheres diferentes, fazer perguntas difíceis e lembrar que nenhuma de nós precisa atravessar tudo sozinha.
Hoje, eu escolho calçar os sapatos vermelhos. E também me dou o direito de tirá-los quando meus pés pedirem descanso.
Lu Barreto — Estado Diário