O município de Ladário, localizado na região do Pantanal sul-mato-grossense, tornou-se um dos alvos centrais de detalhamento na Operação Gutenberg, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). Investigações apontam que, entre dezembro de 2022 e agosto de 2024, a Prefeitura despejou R$ 1.207.600,00 nos cofres da Editora Avante — empresa pivô do esquema de desvio de verbas públicas — por meio de manobras contratuais que burlaram a concorrência pública.
Para evitar o radar dos órgãos de controle, o município fracionou a compra de materiais didáticos e paradidáticos em quatro contratações diretas, justificadas sob a alegação de “inexigibilidade de licitação” devido à suposta exclusividade dos livros.
O Fracionamento dos Contratos
De acordo com os portais de transparência e os autos colhidos pelo Ministério Público (MPMS), os repasses suspeitos ocorreram de forma escalonada:
- Dezembro de 2022: Primeiro contrato firmado no valor de R$ 459.200,00 .
- Julho de 2023: Segunda aquisição direta somando R$ 350.200,00.
- Março de 2024: Terceiro lote de livros no valor de R$ 149.200,00.
- Agosto de 2024: Quarta e última dispensa identificada, totalizando R$ 249.000,00.
A Chantagem da Saúde como Moeda de Troca
O Gaeco apura se o fechamento desses contratos em Ladário foi impulsionado pelo mecanismo de asfixia montado pela organização criminosa na central de regulação da Secretaria de Estado de Saúde (SES).
Como o município depende diretamente de Campo Grande e de outros polos regionais para o encaminhamento de pacientes graves, a quadrilha utilizava o controle de vagas como moeda de troca. A liberação de leitos de UTI, cirurgias de urgência e exames de alta complexidade para os moradores de Ladário era condicionada à assinatura dos decretos de compra de livros da Editora Avante, transformando o direito à saúde da população em balcão de negócios .
Investigação Avança
Documentos fiscais e processos de empenho da prefeitura pantaneira foram apreendidos e passam por perícia técnica. O Ministério Público busca apurar quais agentes políticos e servidores municipais de Ladário facilitaram as compras e se houve o pagamento de propina em dinheiro vivo aos operadores locais. Até o fechamento desta reportagem, a Prefeitura de Ladário não havia se manifestado formalmente sobre os contratos em auditoria.