A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais abriu uma nova frente de tensão política e diplomática envolvendo o Brasil. A medida, anunciada dias após encontros do senador Flávio Bolsonaro com o presidente americano Donald Trump e com o secretário de Estado Marco Rubio, já provoca reações no meio político e acadêmico.
Para especialistas, a iniciativa pode acabar produzindo efeitos opostos aos desejados por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. O professor de política internacional e comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Dawisson Belém Lopes, avalia que o episódio pode fortalecer o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo ele, Lula, mais experiente em debates políticos, poderá explorar a narrativa de que a medida representa uma espécie de submissão aos interesses americanos e uma ameaça à soberania nacional.
“Essa medida pode ser vista como entreguismo, algo contra o Brasil, não a favor, porque prevê uma renúncia de soberania”, afirma Lopes.
A classificação das facções brasileiras como organizações terroristas passa a valer a partir de 5 de junho. Com isso, Washington poderá tratar PCC e CV como ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos, abrindo espaço para sanções econômicas e até possíveis intervenções internacionais relacionadas ao combate às organizações.
A decisão, no entanto, divide especialistas em segurança pública e relações internacionais. Para estudiosos do tema, facções como PCC e Comando Vermelho possuem natureza estritamente criminosa e econômica, diferentemente de grupos terroristas motivados por ideologias políticas ou religiosas.
Ainda assim, Donald Trump tem contestado essa diferenciação. A postura já havia sido adotada anteriormente em relação aos cartéis mexicanos, quando o republicano defendeu tratamento semelhante para organizações criminosas ligadas ao narcotráfico.
Na avaliação de Dawisson Belém Lopes, o movimento político pode acabar atingindo setores que historicamente apoiam candidaturas da direita brasileira, especialmente empresários e investidores do mercado financeiro.
“O tiro pode sair pela culatra”, afirma o professor. “Pode-se cogitar que a iniciativa vá alvejar pessoas ligadas à política, além de políticos profissionais, que mantenham interações com o PCC e o CV. Isso já tem vindo à tona nos últimos tempos.”
O pesquisador cita investigações recentes que apontaram conexões entre organizações criminosas e setores empresariais da chamada Faria Lima, centro financeiro de São Paulo.
“Já se sabe de algumas relações envolvendo a turma da Faria Lima, investidores e bancos com o crime organizado. Quem propôs essa medida pode estar jogando contra si”, acrescenta.
As declarações encontram respaldo em operações conduzidas pela Receita Federal, Polícia Federal e Ministério Público. No ano passado, os órgãos deflagraram uma investigação contra um esquema suspeito de utilizar fundos de investimento e empresas financeiras para lavar dinheiro do PCC.
Segundo estimativas da Polícia Federal, o esquema teria movimentado ao menos R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, principalmente em atividades ligadas ao tráfico de drogas e ao setor de combustíveis.
No campo político, as investigações também alcançaram figuras públicas. O ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar, foi preso sob suspeita de vazamento de informações sigilosas e de obstrução de investigações envolvendo facções criminosas como o Comando Vermelho.
Para Dawisson Belém Lopes, caso as sanções americanas avancem e atinjam empresários, operadores financeiros e agentes políticos ligados ao entorno conservador, o impacto poderá repercutir diretamente no cenário eleitoral brasileiro.
“Essas pessoas têm dinheiro e influência para mexer nas alavancas do sistema político brasileiro. Se forem atingidas, podem se voltar contra quem patrocinou essa aproximação”, conclui.