Quem era Fabíola Marcotti e por que sua memória clama por justiça

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O fechamento do inquérito policial pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) traz à tona muito mais do que a frieza de um laudo pericial. Traz a urgência de dar nome e voz à verdade. Fabíola Marcotti, de 51 anos, não foi apenas mais uma estatística de violência doméstica em Campo Grande; ela foi uma mulher cuja luz, alegria e amor pela vida tornaram, desde o primeiro segundo, a versão de suicídio apresentada por seu marido uma mentira inaceitável para todos que a conheciam.

A decretação de sua prisão preventiva e a captura do médico João Jazbik Neto na manhã deste sábado representam o primeiro e fundamental passo para que a justiça comece a ser feita. Agora, com o inquérito encaminhado ao Ministério Público, o caso segue os trilhos do Poder Judiciário, onde se espera o rigor máximo da lei e a responsabilização do autor.

A força e a doçura de uma mulher apaixonada pela vida

Formada em Fisioterapia no ano de 2001 pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), Fabíola construiu uma carreira exemplar. Atuou com maestria e profunda dedicação na área hospitalar, inclusive no Centro de Terapia Intensiva (CTI) do Hospital Proncor. No ambiente de saúde, era aquela profissional rara, que se entregava ao bem-estar dos pacientes e acreditava na recuperação de cada um deles até o último momento. Ela não desistia da vida.

Quarta de uma família de cinco irmãos — composta por profissionais dedicados como médico, fisioterapeuta, fonoaudióloga e empresário —, Fabíola transbordava afeto. Delicada, doce, sensível e genuinamente feliz, ela não teve filhos biológicos, mas fez dos sobrinhos e sobrinhas a sua grande paixão, mantendo contato diário com eles. Ativa e cheia de energia, praticava atividades físicas todos os dias, herança dos tempos em que jogava basquete na adolescência. Coração corinthiano, fã declarada da banda Jota Quest e apaixonada por animais, especialmente pela raça Border Collie, ela vivia intensamente. Fabíola tinha fé, acreditava que qualquer obstáculo poderia ser superado e nunca negava uma palavra de carinho e apoio a quem estivesse ao seu redor.

Uma mulher com esse perfil jamais colocaria fim à própria vida. E foi por isso que familiares e amigos próximos jamais hesitaram: sabiam que o sorriso de Fabíola não havia se apagado por vontade própria.

O silêncio imposto pelo isolamento tóxico

Por trás da fachada de um casamento na chácara da família, no entanto, operava-se um processo sutil e cruel de apagamento. Há oito anos, Fabíola abriu mão do exercício de sua profissão para se dedicar exclusivamente ao matrimônio, passando a viver mais isolada na propriedade rural.

Nos últimos dois anos, quem a amava começou a notar as marcas invisíveis de um relacionamento abusivo. Aquela mulher vibrante tornou-se mais quieta e perdeu parte de sua vaidade habitual. Discreta, ela pouco falava sobre as dinâmicas do casal, mas os sinais estavam ali. Em um doloroso desabafo feito à nossa redação, um integrante da família revelou o processo de compreensão tardia desse cenário:

“Estou estudando bastante sobre uma pessoa narcisista e relacionamento tóxico, possessivo, e agora podemos ver que ela vivia tudo isso. Ficava só na chácara… um ciúme muito grande que foi confundido com amor, mas infelizmente não era.”

O controle disfarçado de cuidado e o isolamento geográfico e social são comportamentos clássicos que antecedem as formas mais graves de violência doméstica. No caso de Fabíola, o desfecho foi fatal, camuflado por uma tentativa de fraude processual para simular um autoextermínio que a perícia técnica da DEAM, com precisão, desmascarou.

O caminho da justiça não pode parar

O indiciamento por feminicídio e a prisão do cirurgião João Jazbik Neto tiram o véu da impunidade que tantas vezes protege criminosos de colarinho branco e status social. A dinâmica apresentada pela defesa do acusado perde sustentação diante da robustez das provas científicas colhidas pelas investigadoras.

O luto da família e dos amigos de Fabíola Marcotti agora se transforma em uma mobilização permanente. A sociedade sul-mato-grossense exige que o Ministério Público ofereça uma denúncia contundente e que as etapas processuais subsequentes garantam que o responsável seja julgado e condenado pelo crime brutal que cometeu. A memória de Fabíola — de sua doçura, de sua atuação exemplar na saúde e de seu amor inabalável pela existência — merece que a verdade prevaleça. Que a justiça seja feita.

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