O ENCOLHIMENTO DE CORUMBÁ: Como o gigante da mineração asfixia a economia local

0

CORUMBÁ, MS – O subsolo de Corumbá pulsa riqueza, mas a superfície amarga os reflexos de um modelo econômico que tem isolado a comunidade local. Um levantamento minucioso acendeu o sinal de alerta no município: o avanço das grandes mineradoras na região provocou um processo de “internalização” de serviços, reduzindo drasticamente a participação de fornecedores e prestadores de serviços da cidade. A engrenagem, que antes distribuía renda, agora concentra recursos, asfixiando o comércio e esvaziando os cofres públicos.

O diagnóstico da Prefeitura aponta que atividades antes terceirizadas para empresas corumbaenses — como transporte de minério, logística e manutenção — passaram a ser executadas diretamente pelas próprias gigantes do setor. Ao cortar o elo com a cadeia produtiva local, o dinheiro parou de circular no varejo e no setor de serviços.

O tombo bilionário na arrecadação

O impacto mais brutal desse isolamento econômico é sentido na receita do município, que assiste a uma hemorragia de recursos públicos. De acordo com dados oficiais divulgados pelo Diário Corumbaense, a arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), os chamados royalties da mineração, despencou quase pela metade: caiu de R$ 39,479 milhões em 2022 para R$ 19 milhões em 2025.

A crise fiscal ganhou contornos ainda mais graves em 2026. No primeiro quadrimestre deste ano, o recolhimento desses repasses recuou outros 44,7% em comparação ao mesmo período do ano passado. O cenário de terra arrasada obrigou a Prefeitura de Corumbá a abrir investigações rigorosas para auditar os registros fiscais das mineradoras e entender como esses tributos vêm sendo calculados. Além dos royalties, a falta de contratação local gerou uma queda livre no recolhimento do ISSQN (Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza).

O outro lado da moeda

No centro do debate está a LHG Mining, controlada pela holding J&F e principal operadora das jazidas da região. A mineradora rebate as críticas e o clima de desconfiança institucional. A empresa sustenta que mantém investimentos bilionários em planos de expansão em Corumbá e defende seu papel como uma das maiores empregadoras diretas do município, reforçando que prioriza a absorção da mão de obra regional em seus quadros fixos.

Para os empresários locais e a administração pública, no entanto, o emprego direto não tem sido suficiente para compensar o desmonte das empresas da cidade. O desafio de Corumbá agora transcende a arrecadação: tornou-se uma luta para que a riqueza extraída de suas terras não deixe para trás apenas um rastro de dependência e escassez.

.