A segunda edição da mostra Pretou, realizada no espaço cultural Teatro do Mundo, em Campo Grande, reserva um dos momentos mais simbólicos da programação: a homenagem ao artista visual Galvão Preto, falecido em 2023.
A exposição reúne obras que atravessam diferentes fases da trajetória do artista e reforçam a ideia de uma produção contínua, marcada pela experimentação e pela inquietação criativa. Mais do que revisitar um acervo, a mostra apresenta um artista em permanente movimento, cuja obra segue viva mesmo após sua ausência.
A curadoria é assinada por Jacy Curado, companheira de Galvão por 25 anos. Ela aceitou o convite do idealizador da mostra, Fábio Castro, para levar ao público parte da produção do artista.
“Quando um artista morre, a sua obra continua. Tenho esse compromisso de manter o trabalho do Galvão vivo”, afirma Jacy. Segundo ela, esta é a quarta homenagem dedicada ao artista, mas com um significado especial, também pela relação de proximidade entre Galvão e o organizador da mostra.
Paralelamente à participação na Pretou, Jacy prepara a curadoria de uma exposição inédita baseada em um dos últimos trabalhos de Galvão, intitulado “O artista negro viajante”. A série propõe uma releitura dos caminhos da escravidão no Brasil, com registros feitos em cidades como Ouro Preto, Rio de Janeiro e Maranhão.
A proposta inverte a perspectiva histórica: em vez do olhar do colonizador, é o artista negro quem observa e interpreta os vestígios desse passado. Parte desse material não integra a mostra atual justamente por estar sendo organizada para essa nova exposição, prevista em parceria com o grupo TEZ.
A obra de Galvão Preto é marcada pela diversidade de linguagens e materiais. Ao longo da carreira, produziu pinturas, esculturas, desenhos e objetos a partir de elementos não convencionais. Durante a pandemia, por exemplo, criou cidades imaginárias com papelão; em outros momentos, utilizou farinha de mandioca para modelar esculturas e chegou a desenvolver instrumentos próprios.
“Ele era um fazedor de arte. Produzia o tempo todo, independentemente de expor ou não”, resume Jacy.
Nascido no Rio de Janeiro e radicado em Mato Grosso do Sul desde o início dos anos 2000, Galvão construiu uma trajetória atravessada pela afirmação da identidade negra. O próprio nome artístico já expressava posicionamento e pertencimento em um campo historicamente marcado pela invisibilização de artistas negros.
Sua produção dialogava com elementos do território sul-mato-grossense — como tuiuiús, capivaras e paisagens do Pantanal — ao mesmo tempo em que abordava temas como memória, escravidão e a experiência negra no Brasil.
Descrito por amigos como alguém de presença tranquila e olhar atento, Galvão também era reconhecido pela sensibilidade e pela escuta generosa. Para Jacy, a parceria construída ao longo de 25 anos foi marcada por troca, afeto e consciência.
Ao integrar a programação da mostra Pretou, a homenagem amplia o próprio propósito do evento: criar espaços de visibilidade e centralidade para artistas negros. Mais do que uma celebração pontual, a exposição reafirma a permanência de uma obra que continua a dialogar com o presente.
“A obra segue — e, com ela, tudo aquilo que ainda continua sendo dito”, resume a curadora.