O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), por meio do Gaeco, ofereceu denúncia formal contra 17 investigados pelo desvio de R$ 27 milhões dos cofres públicos. A denúncia é o desdobramento da Operação Gutenberg. O caso revela um dos capítulos mais cruéis da corrupção local: a transformação de leitos de UTI, exames e cirurgias do Sistema Único de Saúde (SUS) em moeda de troca para a venda de livros superfaturados.
A engrenagem do crime: Chantagem contra a vida
De acordo com o Gaeco, o esquema funcionava sob uma lógica perversa comandada por servidores públicos e empresários. Municípios que aceitavam assinar contratos de livros com a Editora Avante ganhavam prioridade e liberação rápida de vagas hospitalares para seus munícipes.
Por outro lado, as prefeituras que recusavam a fraude sofriam retaliações imediatas. Mensagens interceptadas expõem o desprezo dos operadores pela vida humana, com ordens explícitas como “deixa o povo sem leito lá” e “só opera se fechar”.
As investigações apontam três núcleos principais:
- O “Clã Jafar”: Comandado por Rossana Paroschi Jafar e seus filhos, que utilizavam a Editora Avante em nome de “laranjas” para faturar milhões.
- O Núcleo Público: Liderado por Ed Carlo Britto Burgatt, então coordenador do Complexo Regulador Estadual da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MS), que usava o poder de liberar vagas para pressionar prefeitos.
- Lavagem de Dinheiro: Envolvia empresários de garagens de veículos e casas noturnas para branquear os R$ 27 milhões desviados.
A revolta de quem espera na fila
A revelação do esquema causou profunda indignação popular em Mato Grosso do Sul. Enquanto o grupo criminoso pulverizava milhões de reais em saques e ostentação, milhares de cidadãos enfrentavam — e ainda enfrentam — uma realidade de abandono. Mato Grosso do Sul historicamente sofre com filas quilométricas para consultas com especialistas, exames de alta complexidade e cirurgias eletivas.
Para o cidadão que depende exclusivamente do SUS, descobrir que a sua espera por um procedimento médico não dependia de critérios clínicos, mas sim de um balcão de negócios corrupto, gera um sentimento de desamparo e revolta. Famílias que perderam parentes aguardando uma “vaga zero” agora lidam com a dolorosa dúvida se a tragédia poderia ter sido evitada caso o município fizesse parte do conluio criminoso. A saúde pública, tratada constitucionalmente como um direito de todos, foi rebaixada a uma ferramenta de extorsão política.
Prisões e o clamor por justiça
A Operação Gutenberg resultou em 16 mandados de prisão preventiva. Líderes do Clã Jafar e o ex-coordenador Ed Carlo Burgatt continuam presos, enquanto o réu Heyder Bartz segue foragido. Além das penas de prisão por corrupção, peculato e organização criminosa, o Ministério Público exige a devolução integral dos R$ 27 milhões.
As defesas dos acusados sustentam a inocência de seus clientes e afirmam que demonstrarão a regularidade dos contratos literários durante o processo legal. Contudo, para a população que depende da regulação estadual de vagas, o caso deixa uma cicatriz profunda e o alerta urgente de que a corrupção na saúde custa, literalmente, vidas humanas.
O modus operandi: O grupo criminoso não se limitou a superfaturar os livros paradidáticos vendidos às prefeituras. Eles utilizaram a chave de acesso ao sistema de regulação de leitos (SUS) para subjugar prefeitos.
A gravidade: Se o gestor municipal não aceitasse a fraude literária, seus pacientes ficavam sem vagas hospitalares. Trata-se de uma simbiose criminosa entre duas secretarias que teoricamente não deveriam se cruzar dessa forma (Educação e Saúde), elevando o nível de perversidade do esquema.