Hospital alerta para risco de demissão em massa de médicos, suspensão de cirurgias e colapso no atendimento caso repasses não sejam regularizados.
Mais uma vez, quem depende do Sistema Único de Saúde (SUS) é quem sofre as consequências da disputa entre o poder público e a Santa Casa de Campo Grande. Enquanto Prefeitura, Governo do Estado e hospital travam uma batalha judicial por recursos, milhares de pacientes convivem com a incerteza, a angústia e a frustração de esperar meses por uma cirurgia que, muitas vezes, é cancelada na véspera por falta de condições de atendimento.
Na noite desta quarta-feira (29), a Santa Casa apresentou à Justiça um novo pedido de urgência para receber R$ 26.564.109,41 em repasses atrasados do Município e do Estado. O hospital pede que o juiz Cláudio Müller Pareja determine, até esta sexta-feira (30), o pagamento dos valores, que já foram reconhecidos em decisão judicial por se referirem à falta de correção monetária pelo IPCA entre dezembro de 2025 e julho de 2026.
Do total reivindicado, R$ 15,3 milhões são de responsabilidade da Prefeitura de Campo Grande e R$ 11,1 milhões do Governo de Mato Grosso do Sul.
Segundo o documento protocolado, a instituição enfrenta uma situação financeira considerada crítica. O hospital afirma ter acumulado um déficit de aproximadamente R$ 20 milhões nesse período justamente pela ausência da atualização monetária dos repasses.
A direção alerta que a continuidade da crise pode provocar o colapso dos atendimentos. Sem recursos para manter os serviços, equipes cirúrgicas estudam pedir demissão em massa, o que poderá interromper procedimentos em diversas especialidades.
Entre as áreas que podem ser afetadas estão cardiologia intervencionista, urologia, ortopedia, radiologia intervencionista, ultrassonografia e psiquiatria. As cirurgias eletivas nas especialidades geral, pediátrica, cardíaca, cardíaca pediátrica e vascular já enfrentam suspensão.
Apenas os atendimentos em hematologia, oncologia e transplante renal devem continuar normalmente, devido à gravidade dos casos atendidos.
Enquanto isso, o drama vivido pelos pacientes se agrava. Pessoas que aguardam há meses — e, em alguns casos, há anos — por uma cirurgia voltam para casa sem saber quando serão chamadas novamente. Muitos já passaram por exames, consultas e preparação para o procedimento, apenas para receber a notícia de que a cirurgia foi cancelada por falta de estrutura ou recursos.
Para quem está na fila, pouco importa quem tem razão na disputa judicial. O que revolta a população é ver um impasse entre Prefeitura, Governo do Estado, Ministério Público e Santa Casa transformar o direito constitucional à saúde em uma espera sem prazo para terminar.
Diante da falta de acordo para um novo contrato, a Santa Casa também pediu que a Justiça determine a prorrogação do convênio atual por mais 30 dias, garantindo os repasses do mês de agosto, desde que os R$ 26 milhões em atraso sejam regularizados.
Além disso, o hospital solicita que Estado e Município sejam obrigados a firmar um novo convênio, elevando o repasse mensal dos atuais R$ 32,7 milhões para R$ 45.946.359,89, valor que, segundo a instituição, seria suficiente para cobrir os custos reais da assistência prestada.
No centro dessa disputa estão milhares de pacientes que aguardam por atendimento e convivem diariamente com a insegurança de ver a própria saúde ficar em segundo plano enquanto o impasse permanece sem solução.