Enquanto milhares de sul-mato-grossenses enfrentavam filas por consultas, exames e cirurgias na rede pública de saúde, conversas obtidas pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) mostram que o então chefe da regulação da Saúde de Mato Grosso do Sul, Ed Carlo Britto Burgatt, discutia a possibilidade de intermediar negócios milionários entre prefeituras e a Editora Avante.
As mensagens, que integram a investigação sobre contratos públicos firmados pela empresa com municípios do Estado, revelam diálogos entre Ed Carlo e o advogado Gabriel Taquino de Paula, apontado pelo Ministério Público como vendedor da editora.
Em uma das conversas, registrada em fevereiro de 2022, Gabriel pergunta ao então servidor estadual se teria acesso ao prefeito de Anastácio e, na sequência, ao gestor de Aquidauana.
“Pra gente ganhar um dinheiro”, escreveu o advogado.
Ed Carlo respondeu que verificaria a possibilidade de aproximação com os prefeitos. Em seguida, Gabriel enviou uma frase que se tornou um dos principais trechos destacados pelo Gaeco:
“Pq se fechar a gente vai ganhar um dinheiro sem fazer nada.”
Para os investigadores, o diálogo demonstra uma suposta atuação conjunta para facilitar o acesso a gestores municipais e obter vantagens com contratos públicos.
“Fechamos Angélica”
Em outra conversa anexada ao inquérito, Gabriel comemora a conclusão de uma negociação.
“Fechamos Angélica 780 mil”, escreveu.
Logo depois, acrescentou:
“20 mil pra mim.”
Na avaliação do Gaeco, as mensagens reforçam a hipótese de que havia divisão de vantagens financeiras relacionadas às vendas realizadas pela Editora Avante.
Conversa cita divisão com prefeito
Outro trecho da investigação trata de uma possível negociação com o município de Inocência.
Ao informar que o prefeito estava em seu gabinete, Ed Carlo escreveu:
“Esse é só meu se rodar.”
Gabriel respondeu:
“Aí vc divide com o prefeito” e “Combina antes quanto vai dar.”
Antes do encontro, Ed Carlo ainda orientou:
“Só explica e não fala nada de percentual ok.”
O Ministério Público considera que a conversa indica uma discussão sobre possíveis vantagens financeiras vinculadas ao contrato. No entanto, ressalta que, apenas com base nesse diálogo, não é possível afirmar que o prefeito tenha recebido valores ou concordado com qualquer pagamento.
Servidor ocupava cargo estratégico na Saúde
As conversas chamam atenção porque, na época, Ed Carlo ocupava a chefia da regulação da Saúde de Mato Grosso do Sul, setor responsável pela organização do acesso de pacientes a consultas, exames, internações e cirurgias pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo o Gaeco, o cargo lhe proporcionava trânsito entre gestores municipais, facilitando contatos políticos que, conforme a investigação, teriam sido utilizados para aproximar a Editora Avante de diversas prefeituras.
Além de Anastácio, Aquidauana e Inocência, as mensagens fazem referência a municípios como Miranda, Ivinhema, Dois Irmãos do Buriti, Camapuã, Bonito, Douradina, Deodápolis, Bodoquena e Angélica.
Investigação
O Gaeco apura a existência de uma organização criminosa voltada ao direcionamento de contratos públicos envolvendo a Editora Avante. Entre os crimes investigados estão organização criminosa, corrupção, peculato e outras irregularidades relacionadas às contratações realizadas por prefeituras de Mato Grosso do Sul.
As investigações seguem em andamento, e os fatos ainda serão analisados pela Justiça. Os investigados têm direito ao contraditório e à ampla defesa.