Marcada para esta segunda-feira (22 de junho de 2026), às 9 horas, no plenário da Câmara Municipal de Corumbá, a audiência pública para discutir a concessão da Hidrovia Paraguai-Paraná ganha contornos de forte embate político e socioambiental. O debate põe lado a lado a cobrança institucional por diálogo, os alertas científicos urgentes do terceiro setor e a crescente mobilização das comunidades tradicionais sob o lema “Ferrovia Sim, Hidrovia Não”. Organizado em parceria com a Environmental Justice Foundation (EJF) e o Instituto SOS Pantanal, o debate visa dar transparência ao projeto de longo prazo. O foco principal é avaliar as profundas implicações econômicas, sociais e climáticas sobre o Rio Paraguai, além de dar continuidade à mobilização popular que defende o lema “Ferrovia Sim, Hidrovia Não”.
O posicionamento da Senadora: Transparência e soberania local
A convocação do ato partiu da senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), que obteve o apoio em caráter suprapartidário da bancada do Mato Grosso do Sul, incluindo o deputado estadual Pedro Kemp (PT) e a deputada federal Camila Jara (PT). O posicionamento de Thronicke foca na defesa do direito de autodeterminação da região afetada.
A senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) enfatizou a necessidade de ouvir a população pantaneira, defendendo transparência e amplo debate público antes de qualquer decisão que impacte o ecossistema. Thronicke busca garantir que o debate técnico preceda atos administrativos, evitando que o planejamento logístico federal negligencie as contribuições locais e os setores de turismo e pesca.
ONGs alertam: Consolidação de infraestrutura ignora riscos ambientais
A audiência conta com a parceria da Environmental Justice Foundation (EJF) e do Instituto SOS Pantanal, que questionam os modelos do projeto. A EJF denuncia a aceleração de obras de infraestrutura, incluindo financiamento para barcaças, antes de uma avaliação completa dos impactos socioambientais.
Por sua vez, o SOS Pantanal destaca, com base em suas Notas Técnicas, que dragagens e derrocamentos podem quebrar o delicado pulso de inundação do bioma.
- As intervenções artificiais podem reduzir o tempo e a extensão das cheias naturais, impactando a fauna e a reprodução pesqueira.
- Estudos oficiais atuais seriam negligentes ao omitir consequências climáticas de longo prazo para o Pantanal.
Mobilização popular como ferramenta jurídica
As ONGs veem a audiência como uma trincheira de resistência, visando a consulta prévia e informada para proteger os modos de vida tradicionais de um projeto de alta magnitude.
A participação de moradores, pescadores, ribeirinhos, povos indígenas e lideranças comunitárias é o pilar central desta audiência. Mais do que um espaço de fala, a presença em massa da comunidade funciona como um instrumento de pressão legal e validação democrática.
O engajamento direto da população assegura que o direito à consulta prévia e informada seja respeitado pelas autoridades competentes. É o momento em que a sociedade civil pode expor diretamente aos parlamentares e técnicos os riscos práticos que obras de dragagem e derrocamento trazem para a segurança alimentar, o turismo local e a subsistência das famílias pantaneiras.
Especialistas ambientais alertam que as intervenções estruturais na hidrovia podem alterar de forma irreversível o ciclo de cheias e secas da maior área úmida continental do mundo. Diante de um investimento estimado em R$ 60 milhões, o comparecimento dos cidadãos corumbaenses é o que garante que os interesses coletivos e a proteção da biodiversidade fiquem acima do lucro corporativo, cobrando do poder público alternativas sustentáveis de transporte, como a malha ferroviária.