A eleição de 2026 em Mato Grosso do Sul começa a revelar uma das faces mais tradicionais da política: quando os interesses eleitorais entram em cena, as fronteiras ideológicas podem ficar menos nítidas. O caso mais recente envolve o prefeito de Ivinhema, Juliano Ferro, que se apresenta politicamente alinhado à direita e próximo ao grupo do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas declarou apoio a nomes de diferentes campos políticos na disputa deste ano.
Em vídeo publicado nas redes sociais, Juliano afirmou que seu primeiro voto para o Senado será no ex-governador Reinaldo Azambuja (PL), a quem rasgou elogios pela gestão à frente do Estado. Na sequência, porém, declarou também apoio ao deputado federal Vander Loubet (PT), pré-candidato ao Senado. Vander teve sua candidatura homologada pelo PT em julho.
Ao justificar a escolha, Juliano destacou a relação pessoal e política construída com o petista ao longo dos anos. Disse já ter participado de três campanhas de Vander e classificou o deputado como um “grande companheiro” durante seus seis anos de mandato em Ivinhema.
A aproximação entre os dois, de fato, não é recente. Registros públicos mostram que Juliano e Vander já atuaram conjuntamente na busca de recursos para o município. Em 2024, por exemplo, uma obra de pavimentação no distrito de Amandina foi viabilizada com recursos indicados por Vander, em um investimento próximo de R$ 1 milhão.
Anos antes, Juliano também aparecia em agendas políticas ao lado do deputado e de outras lideranças de diferentes partidos, defendendo investimentos para Ivinhema. Em 2021, por exemplo, o então prefeito agradeceu publicamente a Vander pelos recursos destinados ao município e, na mesma agenda, citou articulações com nomes ligados a outros grupos políticos.
Uma eleição de dois mundos
O episódio chama atenção porque ocorre justamente em uma eleição marcada pela tentativa dos partidos de organizar chapas, alianças e palanques em um cenário cada vez mais fragmentado.
De um lado, Juliano declara seu primeiro voto para Azambuja, que disputa uma das duas vagas de Mato Grosso do Sul ao Senado pelo PL. De outro, anuncia apoio a Vander, nome do PT para a mesma eleição. Para completar o desenho político, o prefeito também declarou apoio a Flávio Bolsonaro.
Não há impedimento legal para que um eleitor, liderança política ou prefeito manifeste apoio a candidatos de diferentes partidos. A questão que emerge é outra: até que ponto essas escolhas conseguem ser compreendidas pelo eleitor que acompanha a política pela ótica da polarização ideológica?
O eleitor que se identifica com a direita e associa o PL ao bolsonarismo pode se perguntar como interpretar o apoio simultâneo a um candidato do PT. Da mesma forma, eleitores de esquerda podem questionar o que significa receber o apoio de uma liderança que também se posiciona publicamente ao lado do grupo Bolsonaro.
É justamente nesse ponto que a eleição de 2026 começa a produzir uma situação curiosa: enquanto os discursos partidários continuam apresentando diferenças ideológicas marcantes, nos bastidores municipais as alianças podem obedecer a uma lógica muito mais pragmática.
Ideologia ou interesse político?
A declaração de Juliano também reacende um debate antigo na política brasileira: alianças eleitorais são construídas por afinidade ideológica ou pela soma de interesses políticos locais?
Em Ivinhema, a relação entre Juliano e Vander demonstra que a cooperação institucional pode atravessar barreiras partidárias. Recursos, obras, articulações em Brasília e atendimento às demandas municipais criam relações que nem sempre acompanham a divisão entre esquerda e direita.
O problema, para o eleitor, é quando essa lógica pragmática não vem acompanhada de uma explicação política clara.
Afinal, se um político se apresenta como representante de determinado campo ideológico, mas pede votos simultaneamente para candidatos de campos opostos, a pergunta inevitavelmente chega às urnas: o que está sendo escolhido — uma ideologia, uma pessoa ou uma aliança política?
A reação nas redes sociais
A repercussão do vídeo mostra que parte do público percebeu justamente essa contradição. Nos comentários, uma internauta classificou a postura do prefeito como uma “vergonha” e chegou a sugerir que ele seria um “infiltrado” em um partido de direita.
A crítica é um reflexo da cobrança que lideranças políticas enfrentam em uma eleição cada vez mais marcada pela polarização nacional. Para muitos eleitores, apoiar candidatos de lados diferentes não é apenas uma questão de estratégia eleitoral, mas pode representar uma incoerência entre discurso e prática.
Por outro lado, aliados podem interpretar o mesmo movimento de outra maneira: como demonstração de independência política e capacidade de dialogar com diferentes grupos em defesa dos interesses do município.
O eleitor no meio da confusão
O cenário de Mato Grosso do Sul em 2026 mostra que a velha política das alianças locais continua convivendo com a nova política da polarização nacional.
No palanque, os discursos podem ser ideológicos. Nos municípios, entretanto, prefeitos, deputados, senadores e candidatos frequentemente mantêm relações construídas ao longo de anos, independentemente das siglas.
É nesse choque entre ideologia e pragmatismo que o eleitor terá de fazer suas escolhas.
A grande questão não é se Juliano Ferro pode apoiar Azambuja, Vander e Flávio Bolsonaro — ele pode. A questão política é como essas escolhas serão interpretadas por quem vai depositar dois votos para o Senado nas urnas de outubro.
Em uma eleição na qual os partidos tentam organizar seus campos e os políticos negociam alianças para ampliar suas chances, o eleitor sul-mato-grossense começa a receber sinais contraditórios. E caberá a ele decidir se enxerga essas alianças como incoerência ideológica, pragmatismo político ou simplesmente uma característica da política brasileira.