A audiência de instrução do caso que apura a morte da subtenente da Polícia Militar Marlene de Brito Rodrigues foi marcada por depoimentos que reforçam a linha investigativa adotada pela Polícia Civil. Durante oitiva realizada nesta segunda-feira (15), a delegada Analu Ferraz afirmou acreditar que o crime possa ter sido motivado por interesses financeiros e destacou elementos que, segundo a investigação, fragilizam a versão de suicídio apresentada inicialmente pelo réu Gilberto Jarson, de 50 anos, namorado da vítima.
A audiência ocorreu na 2ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande, sob a condução do juiz Aluízio Pereira dos Santos. Ao todo, sete testemunhas foram convocadas para prestar depoimento, incluindo familiares, amigos e pessoas ligadas ao acusado.
Em seu depoimento, a delegada explicou que o celular da subtenente passou por análises técnicas após a constatação de que parte das mensagens poderia ter sido apagada. Segundo ela, a investigação identificou que Marlene enfrentava dificuldades financeiras, apesar da longa carreira na corporação.
Documentos reunidos durante o inquérito apontam que a policial acumulava empréstimos que reduziam significativamente sua renda mensal líquida, estimada em cerca de R$ 2,5 mil. Para a delegada, o cenário financeiro pode ter relação direta com a dinâmica vivida pelo casal.
Analu Ferraz também afirmou que testemunhas descreveram uma relação de forte dependência emocional por parte da vítima. Conforme relatos de familiares e amigos, Gilberto teria surgido em um momento de vulnerabilidade emocional da subtenente, oferecendo companhia e apoio.
“Pelos relatos dos filhos e de amigos, tive a percepção de que Gilberto surgiu na vida dela como alguém que lhe oferecia companhia e estabilidade emocional. Inclusive, no depoimento do capelão, foi relatado que ela dizia ter encontrado alguém naquele momento da vida”, declarou.
Outro aspecto destacado pela delegada foi o fato de moradores da região relatarem informalmente que o acusado costumava circular armado pelo bairro. A investigação também apura o uso de uma arma associada à família da vítima.
Além disso, chamou atenção dos investigadores a ausência de registros de comunicação entre os dois. Apesar de manterem um relacionamento há aproximadamente um ano e meio, não foram encontrados no material analisado mensagens, fotografias ou vídeos trocados entre o casal, apenas dois registros de chamadas telefônicas.
Segundo a delegada, informações coletadas ainda no local dos fatos indicavam que o acusado foi visto com a arma nas mãos e se movimentando pela residência logo após o disparo. O relato foi corroborado por um perito criminal que participou da ocorrência e considerou a cena incompatível com a hipótese de suicídio.
Filhos e amigos relatam mudanças no comportamento da vítima
Durante a audiência, o filho da subtenente, Marcus Vinícius, relatou que a mãe passou por mudanças significativas após o início do relacionamento.
Segundo ele, Marlene era conhecida pelo perfil alegre e comunicativo, mas teria se tornado mais reservada, distante da família e emocionalmente abalada ao longo dos meses.
“Ela sempre foi uma pessoa muito alegre, de alto astral. Com o passar do tempo, eu a via mais afastada, mais fechada e mais triste”, afirmou.
Marcus também relatou que o acusado demonstrava ciúmes frequentes, inclusive em relação à convivência da policial com os próprios filhos. De acordo com o depoimento, nos últimos meses a vítima manifestava desejo de encerrar a relação, mas não sabia como fazê-lo.
O filho revelou ainda que parte dos empréstimos contratados por Marlene teria sido utilizada para viabilizar projetos comerciais planejados pelo companheiro. Após a morte, a família descobriu que o volume de dívidas era superior ao que imaginava.
Um amigo próximo da vítima, também policial militar, reforçou a percepção de que o relacionamento apresentava sinais de controle e possessividade. Segundo ele, pouco tempo após o início da relação, Marlene passou a relatar comportamentos considerados excessivamente ciumentos e opressores por parte do namorado.
O militar afirmou que chegou a alertar a colega sobre os riscos da relação e destacou que, em nenhum momento, ela demonstrou qualquer intenção de tirar a própria vida.
“Falei que esse tipo de comportamento não dá certo e que ela precisava ser livre”, relatou.
Segundo o depoente, Marlene tinha planos de casamento e demonstrava interesse em construir uma vida familiar ao lado do companheiro.
Contradições e investigação
A morte da subtenente ocorreu em abril de 2026, no Conjunto Habitacional Estrela Dalva, em Campo Grande. Marlene foi encontrada caída na sala da residência onde morava com Gilberto Jarson, vestindo a farda da Polícia Militar.
Logo após o disparo, um policial militar que passava pela região ouviu o estampido e entrou na casa. Conforme os autos, ele encontrou o acusado na sala segurando um revólver calibre .38 enquanto realizava ligações telefônicas.
A análise do aparelho celular mostrou que, imediatamente após o tiro, Gilberto entrou em contato com a Polícia Militar, com um cunhado e também com seu advogado.
Durante os primeiros depoimentos, o acusado apresentou versões divergentes sobre o ocorrido. Inicialmente, afirmou que estava no quintal da residência cobrindo uma motocicleta quando ouviu o disparo. Posteriormente, alegou que entrou em luta corporal com a companheira para impedir que ela efetuasse o disparo, justificando assim possíveis vestígios de pólvora em suas mãos.
As versões foram contestadas por testemunhas e moradores da região. Vizinhos relataram à polícia que o casal mantinha discussões frequentes e que, em ocasiões anteriores, era possível ouvir gritos e pedidos de socorro vindos da residência.
A investigação segue sustentando a tese de feminicídio, enquanto a defesa do réu mantém a versão de que a morte teria ocorrido por suicídio. A decisão sobre o encaminhamento do caso ao Tribunal do Júri dependerá da conclusão da fase de instrução processual.