O escritório da A Agência Brasileira de Inteligência (Abin), em Campo Grande, confirmou que está monitorando e investigando rotas usadas por quadrilhas de tráfico de pessoas que passam por Corumbá, na fronteira com a Bolívia.
Segundo o órgão, grupos criminosos atuam há anos em Mato Grosso do Sul aliciando bolivianos com falsas promessas de emprego para trabalhar em oficinas clandestinas de costura em São Paulo.
A rota é considerada uma das mais antigas do Brasil. Os imigrantes saem de cidades bolivianas, atravessam a fronteira por Corumbá e seguem viagem em ônibus clandestinos até grandes centros do País.
As informações fazem parte de um relatório inédito de 80 páginas produzido pela Abin com apoio da Organização Internacional para as Migrações (OIM), ligada à ONU, e da Casa Civil.
De acordo com a diretora de Promoção dos Direitos Humanos do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), Cândida Souza, o documento deve ajudar no fortalecimento de políticas públicas e ampliar o debate sobre o combate ao tráfico de migrantes.
O relatório aponta que as quadrilhas atuam em diferentes crimes ao mesmo tempo, como tráfico internacional de pessoas, contrabando de migrantes e trabalho análogo à escravidão.
Brasileiros e bolivianos fazem parte do esquema, mas outras nacionalidades também passaram a integrar a rede criminosa. As vítimas são atraídas por anúncios falsos de emprego divulgados em redes sociais, rádios online e rodoviárias de cidades bolivianas próximas da fronteira, como Puerto Suárez e Puerto Quijarro.
Depois de entrar no Brasil, muitos migrantes têm documentos e pertences retidos pelos criminosos, ficando com medo de denunciar ou procurar ajuda das autoridades.
Segundo a Abin, a maioria dos bolivianos aliciados são adultos em situação de vulnerabilidade financeira. Muitos acabam trabalhando em oficinas têxteis de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais em condições precárias e semelhantes à escravidão.
O superintendente da Polícia Federal em Mato Grosso do Sul, Carlos Henrique Cotta D’Ângelo, afirmou que paraguaios também têm sido vítimas desse tipo de exploração, principalmente em plantações e fábricas clandestinas de cigarros.
Para fugir da fiscalização, os chamados “coiotes” orientam os migrantes a cruzar a fronteira sem fazer o registro oficial de saída da Bolívia. A travessia acontece tanto pelo Posto Esdras quanto por rotas clandestinas conhecidas como “cabriteiras”.
Os criminosos usam vans, táxis, motoristas de aplicativo e até trilhas ilegais próximas ao Exército Brasileiro, como a chamada “Trilha do Gaúcho”.
Depois de entrar no Brasil, os imigrantes seguem viagem em ônibus clandestinos que usam caminhos alternativos para escapar das fiscalizações policiais, passando por cidades como Maracaju, Rio Brilhante e Nova Alvorada do Sul.
Os atravessadores chegam a cobrar R$ 50 para ajudar na travessia da fronteira e até R$ 150 para devolver documentos ou bagagens retidas. Já a viagem clandestina até São Paulo custa entre R$ 200 e R$ 500 por pessoa.
Segundo o relatório, entre oito e dez ônibus clandestinos fazem diariamente o trajeto entre Corumbá e São Paulo.
A chefe de programas da OIM no Brasil, Michelle Barron, afirmou que o combate ao tráfico de pessoas depende da união entre diferentes órgãos, já que o crime causa graves impactos físicos, psicológicos e sociais às vítimas.
Somente entre janeiro e fevereiro deste ano, a Polícia Federal em Corumbá identificou sete pessoas envolvidas no esquema e localizou cerca de 100 migrantes em situação irregular.