Corumbá, MS — As paredes descascadas, os tapumes envelhecidos e o canteiro de obras vazio na Rua 15 de Novembro foram, por exatamente dez anos, o monumento mais visível da falta de comprometimento político com a saúde da mulher na gestão do ex prefeito Marcelo Iunes em Corumbá. Em junho de 2026, a assinatura da Ordem de Serviço que autoriza o reinício das obras do Novo Centro de Saúde da Mulher traz um alento à população pantaneira, mas joga luz sobre uma ferida crônica da gestão pública: o custo humano da falta de prioridade política.
O projeto, que deveria ser a espinha dorsal do atendimento médico e preventivo feminino na região, foi completamente interrompido em 2016. Desde então, o município assistiu a uma sucessão de transições políticas, promessas de palanque e justificativas burocráticas que empurraram a conclusão do prédio definitivo para o final da fila de urgências da prefeitura.
O disfarce da lentidão e o improviso
A falta de prioridade política raramente é assumida pelos gestores; ela costuma ser camuflada por eufemismos técnicos. Em 2021, diante de duras cobranças da Câmara Municipal sobre o abandono da estrutura, a resposta oficial da administração pública foi de que o projeto “não estava paralisado, mas sendo executada de forma lenta”. Na prática, a “forma lenta” significou uma década inteira de espera para milhares de mulheres que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS).
Para mitigar o apagão na assistência, a solução encontrada foi o improviso: o atendimento foi transferido provisoriamente para um prédio alugado na Rua Major Gama. O que deveria ser um arranjo temporário durou anos, consolidando a precarização. Profissionais enfrentaram limitações técnicas e pacientes foram submetidas a ambientes inadequados para exames sensíveis, como mamografias e colposcopias.
A mudança pelo viés técnico
A reviravolta no cenário atual carrega uma ironia política. A engrenagem só voltou a girar de forma definitiva sob a gestão do atual prefeito, Dr. Gabriel Alves de Oliveira, cuja trajetória profissional é a ginecologia e a obstetrícia. Ao assumir o Executivo e assinar o contrato de R$ 1.314.232,79 com a PN Engenharia, o médico-prefeito deu um diagnóstico severo sobre o próprio retrocesso que herdou, pontuando que a falta de dignidade afetava tanto quem buscava o atendimento quanto os profissionais que ali trabalhavam.
A retomada, viabilizada tardiamente por meio de emenda parlamentar federal do deputado Geraldo Resende, prova que o dinheiro existia nos canais federais; faltava a articulação e o empenho local para captação e execução do projeto de acordo com as exigências da Lei de Licitações.
O preço do tempo
Com a promessa de entrega da estrutura física ainda para o final de 2026, Corumbá tenta correr contra o tempo perdido. O novo centro prevê consultórios integrados, salas modernas de ultrassonografia e um núcleo de planejamento familiar.
Contudo, para além dos tijolos e equipamentos que finalmente começam a ser assentados em frente à Santa Casa, a história do Centro de Saúde da Mulher fica registrada como um estudo de caso sobre como a ausência de vontade política pode congelar direitos fundamentais. A obra sai do papel, mas os dez anos de omissão governamental deixam uma marca que nenhuma reforma será capaz de apagar da história da saúde pública pantaneira.
Enquanto a estrutura do Centro de Saúde da Mulher de Corumbá esteve paralisada, os índices de câncer no Mato Grosso do Sul continuaram avançando, reforçando que o tempo da burocracia é inimigo da saúde.
- Câncer de Mama: De acordo com as estimativas oficiais do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Mato Grosso do Sul registra anualmente uma taxa de 53,92 casos a cada 100 mil mulheres. É o tipo de tumor que mais afeta a população feminina no estado.
- Câncer de Colo de Útero: O estado também acende um alerta vermelho para o câncer do colo do útero, ocupando a 2ª posição na região Centro-Oeste em incidência, com uma taxa estimada de 17,37 casos por 100 mil mulheres.
- A Janela de Cura: Médicos oncologistas e ginecologistas apontam que o diagnóstico precoce, feito através de mamografias e exames preventivos (como a colposcopia, que o novo centro oferecerá), garante mais de 90% de chance de cura se a doença for descoberta em estágio inicial.
- O Gargalo: Sem um centro especializado definitivo na cidade por uma década, o rastreamento dessas doenças na região do Pantanal enfrentou barreiras geográficas e operacionais urgentes, forçando o deslocamento de pacientes ou retardando o início de tratamentos vitais.