A faixa de fronteira entre o Brasil e a Bolívia passará por uma profunda reestruturação de segurança para conter o avanço das facções criminosas dedicadas ao tráfico transnacional de drogas e armas. Como parte do plano estratégico Frontera Segura 2.0, o governo boliviano direcionará para a região de Corumbá (MS) um contingente de policiais civis e militares com experiência e capacitação técnica adquiridas em missões de paz da Organização das Nações Unidas (ONU). A meta é elevar o rigor tático e a capacidade de inteligência na divisa com as cidades de Puerto Suárez e Puerto Quijarro.
O planejamento operacional de enfrentamento ao narcotráfico conta com o suporte internacional de órgãos de cooperação de países como Estados Unidos, Colômbia, Chile e Argentina. Novas unidades policiais de elite estão sendo formadas a partir do centro de treinamento Garras del Valor, voltadas especificamente para operações especiais na área de fronteira. Essas tropas especiais devem atuar em regime rotativo, com a previsão de mobilização de cerca de 230 a 250 agentes que serão renovados a cada 45 dias para manter a vigilância contínua nas principais rotas de escoamento de entorpecentes.
Embora Corumbá seja considerada uma rota essencial para a entrada de drogas em Mato Grosso do Sul, as autoridades de segurança bolivianas apontam a divisa com o estado de Mato Grosso (MT) como o ponto mais crítico e vulnerável da atualidade. Cidades bolivianas como San Matías, que faz fronteira com Cáceres (MT), e San Ignacio de Velasco concentram altos índices de violência urbana e execuções sumárias comandadas por organizações criminosas de origem brasileira. Por essa razão, as bases físicas fixas das novas unidades de elite antidrogas serão prioritariamente instaladas nos departamentos de Santa Cruz e Beni.
Para complementar as ações táticas de campo, o plano também estabelece uma cooperação binacional direta com as forças de segurança brasileiras. Está prevista a criação de um escritório permanente da Polícia Federal do Brasil em território boliviano, além do intercâmbio de oficiais da Bolívia em solo brasileiro. O objetivo da integração é viabilizar o compartilhamento rápido de dados de inteligência, o monitoramento por drones e a fiscalização de estradas rurais, fechando o cerco contra a atuação das facções na divisa entre os dois países.
Para garantir o cercamento digital e a cobertura de áreas de difícil acesso na região do Pantanal, o governo de Mato Grosso do Sul também tem apostado fortemente no uso de aeronaves não tripuladas. Por meio da Operação Protetor das Fronteiras, a Polícia Civil do Estado (PCMS), com atuação de delegacias especializadas como a Decco e a Deccor, realiza o monitoramento tático continuado de estradas vicinais, portos clandestinos e caminhos rurais no entorno de Corumbá e Ladário. O emprego desses drones equipados com câmeras térmicas e alta autonomia de voo permite capturar movimentações suspeitas em tempo real, alimentando os setores de inteligência antes mesmo que os carregamentos alcancem vias principais como a BR-262.
Essa ofensiva tecnológica das forças estaduais faz parte de um investimento superior a R$ 1 milhão na modernização de frotas da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), estendendo-se também para o ambiente interno. Em operações recentes de segurança penitenciária integradas com a Força Penal Nacional, as equipes policiais conseguiram interceptar 18 drones adaptados por facções criminosas para o transporte de celulares e drogas a presídios de Mato Grosso do Sul. A neutralização desses aparelhos, que operavam com sistemas de ganchos mecânicos, gerou um prejuízo estimado em mais de R$ 300 mil ao crime organizado, consolidando a estratégia de vigilância aérea como um pilar essencial para o controle e a repressão dos crimes transnacionais no estado.