Mensagens entre Vorcaro e Moraes colocam relação sob escrutínio

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Relatório da Polícia Federal reúne registros digitais, encontros e documentos; PGR questiona legalidade da apuração e ministro ainda não é investigado formalmente

A divulgação de mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e encaminhadas a um contato identificado como o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), abriu uma crise dentro da Corte e provocou pedidos de esclarecimento sobre a relação entre os dois.

O material integra um relatório de 218 páginas elaborado pela Polícia Federal a partir da análise do celular de Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O aparelho foi apreendido em novembro de 2025, durante a Operação Compliance Zero.

Apesar de o episódio ser tratado em algumas publicações como “gravações”, o conteúdo divulgado é formado principalmente por capturas de tela, arquivos temporários, registros de acesso a aplicativos, documentos e mensagens enviadas pelo WhatsApp. Não foi localizada, até o momento, uma gravação integral em áudio de uma conversa entre Vorcaro e Moraes.

O relatório foi tornado público na terça-feira (1º), após o ministro André Mendonça retirar o sigilo da apuração.

Como as mensagens foram recuperadas

Segundo a Polícia Federal, Vorcaro escrevia textos no aplicativo de notas do celular, fazia capturas de tela e enviava as imagens pelo WhatsApp no modo de visualização única, que faz o conteúdo desaparecer depois de aberto.

Embora as mensagens não permanecessem armazenadas normalmente no aplicativo, a perícia encontrou vestígios digitais, arquivos temporários e registros de utilização do aparelho. A PF analisou milhares de logs e acessos a aplicativos para reconstruir a sequência dos envios e identificar os destinatários.

A conclusão sobre o contato com Moraes foi feita a partir do padrão de uso do celular, dos horários, dos arquivos encontrados e de outros registros associados às mensagens.

Vorcaro perguntou se deveria deixar o país

Entre os registros divulgados está uma mensagem na qual Vorcaro pergunta ao contato atribuído a Moraes se deveria deixar o Brasil. O texto teria sido encaminhado dias antes da prisão do ex-banqueiro.

Em outras mensagens, Vorcaro demonstra gratidão ao ministro e solicita encontros. Para os investigadores, o conjunto dos registros pode indicar que o ex-controlador do Master buscava informações ou auxílio diante das medidas que atingiriam o banco.

O relatório também aponta indícios de pelo menos seis encontros entre Vorcaro e Moraes entre novembro de 2024 e agosto de 2025. Parte dessas reuniões é mencionada pelo próprio ex-banqueiro em conversas com terceiros; em outros casos, funcionários teriam registrado a chegada do ministro ou tratado da organização dos encontros.

Esses elementos são considerados indícios pela Polícia Federal, mas ainda não foram submetidos ao contraditório nem resultaram em condenação ou reconhecimento judicial de crime.

Contrato de R$ 131 milhões

Outro ponto analisado é um contrato firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado pela advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

O acordo previa pagamentos mensais de aproximadamente R$ 3,6 milhões durante três anos. Se cumprido integralmente, alcançaria cerca de R$ 131,2 milhões.

Metadados de uma versão do documento registraram uma edição feita por um perfil identificado no sistema Office 365 como “Ministro Alexandre de Moraes”. O escritório confirmou que Moraes teve acesso ao contrato, mas afirmou que a participação do ministro se limitou à verificação de possíveis impedimentos legais.

Segundo a banca, não havia previsão de atuação em processos no STF e Moraes nunca julgou uma causa envolvendo o Banco Master. O escritório sustenta que os serviços advocatícios foram efetivamente prestados.

Não há decisão sobre eventual irregularidade no contrato. A participação do ministro na análise do documento e a natureza da relação mantida com Vorcaro deverão ser avaliadas caso uma investigação formal seja autorizada.

PGR pede anulação do relatório

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a anulação e o arquivamento da apuração relacionada a Moraes. Para a PGR, André Mendonça não poderia ter determinado, por iniciativa própria, o aprofundamento das investigações sobre outro ministro do Supremo.

Gonet argumenta que a investigação de integrante da Corte dependeria da observância de regras específicas de competência e da participação do plenário. O parecer afirma que a ordem e os elementos produzidos sofreriam de “dupla nulidade”. A íntegra da manifestação está disponível neste documento da PGR.

O pedido de nulidade discute a legalidade do procedimento adotado e não representa, por si só, uma conclusão sobre a autenticidade ou o conteúdo das mensagens.

Caso depende de decisão do STF

Alexandre de Moraes ainda não foi formalmente incluído como investigado. Como ministros do Supremo possuem foro por prerrogativa de função, a abertura de uma investigação depende de autorização da própria Corte.

O presidente do STF, Edson Fachin, poderá decidir pelo arquivamento ou levar o tema para análise do plenário. André Mendonça defende que os novos elementos sejam discutidos pelos demais ministros.

Até o momento, não existe decisão judicial que reconheça a prática de crime por Moraes em razão das mensagens, dos encontros ou do contrato. Também não foi apresentada uma acusação formal contra o ministro nesse episódio.

A OAB defendeu uma apuração rigorosa e imparcial, com respeito às garantias constitucionais e ao direito de defesa. O caso permanece em fase de avaliação institucional e deverá ter novos desdobramentos no Supremo.

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