Uma médica de 27 anos denunciou um cenário de colapso estrutural e violência discriminatória durante um plantão na unidade de saúde do bairro Monte Castelo, em Campo Grande, neste domingo, 12. O registro policial, fundamentado na Lei nº 7.716/89, expõe um caso de LGBTfobia sofrido pela profissional em meio a condições de trabalho degradantes que colocaram a vida de pacientes em risco iminente. Ao assumir o setor, a médica encontrou uma superlotação crítica, com a sala vermelha ocupada por casos gravíssimos de choque séptico e insuficiência cardíaca, enquanto o fluxo de ambulâncias permanecia ininterrupto.
A gravidade da situação atingiu o ápice durante um procedimento de emergência, quando o único ambu disponível na unidade — que já apresentava remendos — quebrou e se desmontou enquanto a profissional tentava ventilar um paciente grave. A falha deixou o paciente sem oxigenação adequada por cerca de 30 segundos, fazendo a saturação cair para 65%. Sem equipamentos de reserva, a equipe foi forçada a improvisar com um ambu pediátrico. Diante da precariedade, a médica acionou a direção técnica, mas o conflito se intensificou com a chegada da diretora médica da unidade.
A vítima, que se identifica como travesti, relatou ter sofrido discriminação direta por parte da superior. Segundo o boletim de ocorrência, a diretora utilizou pronomes masculinos repetidamente para se referir à médica, ignorando correções e tratando-a de forma grosseira. A denúncia aponta ainda que a gestora desconsiderou as explicações clínicas sobre o estado dos pacientes e a autonomia da profissional antes de proferir críticas, agravando o ambiente de hostilidade.
O relato expõe uma negligência sistêmica na gestão da saúde pública e a falta de suporte para lidar com a demanda crítica de pacientes. Além da escassez de insumos básicos, a médica destacou a impossibilidade de realizar registros adequados devido ao caos instalado. O caso foi registrado na Polícia Civil como prática de discriminação por identidade de gênero. Até o momento, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) e a Prefeitura de Campo Grande não se manifestaram sobre as falhas estruturais ou sobre a denúncia de preconceito.