Vanessa Ricarte relatou falhas no atendimento policial antes de ser assassinada

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A jornalista Vanessa Ricarte, de 42 anos, foi assassinada na última quarta-feira ao tentar retirar seus pertences de casa. Vanessa contava com a escolta policial para realizar a ação, mas o apoio não foi concretizado. Horas antes do crime, ela enviou um áudio por aplicativo de mensagens a uma amiga, informando que iria à delegacia com um amigo, cuja identidade foi preservada, e que chegaria com a polícia para retirá-lo de dentro de casa. O áudio foi divulgado inicialmente pelo site “Comunica na TV”.

De acordo com as delegadas Elaine Benicasa e Analu Ferraz, a escolta policial que Vanessa esperava não foi disponibilizada. As autoridades ofereceram abrigo na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), mas a oferta foi recusada pela jornalista. As delegadas afirmaram que Vanessa optou por seguir com o amigo para a casa dele, mas fez uma parada em sua própria residência para pegar roupas.

Foi nesse momento que o crime ocorreu. Caio Nascimento, que já aguardava por Vanessa, foi o responsável pelo assassinato. O caso chocou a comunidade local e levantou questionamentos sobre a efetividade das medidas de proteção a mulheres em situação de risco. As circunstâncias exatas do crime ainda estão sob investigação, mas o ocorrido já reacendeu o debate sobre a necessidade de maior segurança e apoio às vítimas de violência doméstica.

Em um áudio enviado a outro amigo horas antes de ser morta, Vanessa Ricarte desabafou sobre o tratamento que recebeu na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) na madrugada de quarta-feira. Ela reclamou da frieza da delegada plantonista, que se recusou a fornecer detalhes sobre o histórico de agressões de seu noivo, Caio Nascimento, que horas mais tarde a assassinou. “Está explicado porque não aconteceu nada com o Caio. O jeito que ela me tratou, bem prolixa, seca”, disse Vanessa, que ainda relatou ter sido interrompida várias vezes durante o atendimento. A delegada justificou que os antecedentes de Caio eram protegidos por segredo de Justiça e sigilo policial. “Parece que tudo protege o agressor”, lamentou Vanessa.

O áudio enviado por Vanessa antes de sua morte gerou uma reviravolta no caso, levando à abertura de uma investigação disciplinar dentro da Polícia Civil para apurar possíveis falhas no atendimento à jornalista. O delegado-geral Lupércio Degerone Lúcio afirmou que um procedimento foi iniciado para verificar o ocorrido. “Determinei um procedimento apuratório para verificar eventuais falhas nesse atendimento”, disse ele, após reunião no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul com a desembargadora Jaceguara Dantas, responsável pela Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência. O objetivo é aprimorar o atendimento e evitar que casos como o de Vanessa se repitam.

Vanessa Ricarte deixou a delegacia com uma versão impressa da medida protetiva concedida pela Justiça, mas não recebeu a escolta policial para retirar seus pertences de casa, conforme previsto no protocolo de proteção à vítima. As delegadas da Deam afirmaram que a escolta deve ser solicitada pela vítima à Guarda Civil Metropolitana de Campo Grande, mas Vanessa não foi informada sobre esse procedimento. Ceureci Fátima Santiago Ramos, coordenadora do Fórum Permanente pela Vida de Mulheres e Meninas de MS (MCria), criticou a falta de apoio do poder público. “O poder público não protege ninguém. É cada uma por si e Deus por todas elas”, afirmou. Ela destacou que a espera por uma escolta pode variar de 5 a 40 dias, dependendo da urgência.

Caio Nascimento Pereira, de 35 anos, teve sua prisão em flagrante convertida em preventiva durante audiência de custódia na sexta-feira (14). Ele já tinha histórico de agressões contra ex-namoradas, a irmã e a mãe, mas esses antecedentes eram desconhecidos por Vanessa e outras mulheres devido ao sigilo judicial. Músico conhecido em Campo Grande, Caio mantinha boa relação com colegas da profissão, mas, após o crime, artistas começaram a se mobilizar contra a violência doméstica. Rafael Barros, vocalista da banda On The Road, criticou publicamente quem “passa pano” para agressores e destacou a necessidade de ação. “A gente precisa fazer alguma coisa”, disse ele, durante apresentação no Blues Bar, onde Caio costumava tocar.

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