Vídeo divulgado por João Henrique Catan identifica Rodrigo Perez deixando aeronave avaliada em cerca de R$ 75 milhões; origem, custeio e finalidade da viagem ainda não foram esclarecidos
O candidato do Novo ao Governo de Mato Grosso do Sul, deputado estadual João Henrique Catan, divulgou um vídeo no qual acusa o secretário estadual de Governo e Gestão Estratégica, Rodrigo Perez Ramos, de ter desembarcado no Aeroporto Internacional de Campo Grande em um jato executivo operado por uma holding ligada à família Batista, controladora da JBS.
As imagens teriam sido registradas por volta do meio-dia desta segunda-feira (7). No vídeo, um homem de camisa polo escura desce da aeronave de matrícula PS-VFA e retira malas do compartimento de bagagens. Ele está acompanhado por outro homem, de terno, apontado na publicação como integrante da segurança da Governadoria.
A identificação de Perez e do suposto agente de segurança foi apresentada por Catan e pela reportagem que divulgou o caso. Até o momento, não foi localizada uma confirmação pública do secretário ou do Governo do Estado sobre a viagem.
Também permanecem sem esclarecimento a finalidade do deslocamento, quem autorizou o uso da aeronave e quem pagou os custos do voo.
Avião é operado por holding ligada aos Batista
A matrícula PS-VFA corresponde a um Embraer EMB-505 Phenom 300E, número de série 50500822. O modelo e a identificação da aeronave aparecem em bancos de dados especializados em aviação.
Conforme informações cadastrais reproduzidas pela reportagem do Investiga MS, o proprietário formal do avião é o Bradesco Leasing S.A. — Arrendamento Mercantil. A aeronave estaria submetida a um contrato de leasing registrado em 27 de março de 2025.
Já a operadora registrada seria a VLBM Participações Ltda., holding com sede em São Paulo e capital social de aproximadamente R$ 75,1 milhões.
O quadro societário informado nas bases que reproduzem dados da Receita Federal é formado por Valére Batista Mendonça Ramos, Fabrine Batista Ramos Moreira e Aguinaldo Gomes Ramos Filho.
Valére é filha de José Batista Sobrinho, conhecido como Zé Mineiro, fundador da JBS, e irmã dos empresários Joesley e Wesley Batista. Aguinaldo Gomes Ramos Filho ocupa posição de comando na J&F, holding da família que controla a JBS, e integra o conselho de administração do frigorífico.
Diante desses registros, é possível afirmar que o avião é operado por uma empresa ligada à família Batista. Entretanto, seria impreciso dizer que a aeronave pertence diretamente à JBS, uma vez que o proprietário formal apontado é o Bradesco Leasing e a operadora é a VLBM.
A consulta oficial sobre proprietário, operador e situação de aeronaves brasileiras pode ser realizada no Registro Aeronáutico Brasileiro, mantido pela Anac.
Aeronave pode percorrer mais de 3,7 mil quilômetros
O Phenom 300E está entre os principais modelos da aviação executiva produzidos pela Embraer. Segundo a fabricante, a aeronave possui autonomia aproximada de 3.724 quilômetros considerando cinco ocupantes, além de atingir velocidade de cruzeiro de até 464 nós.
A capacidade permite realizar, sem escalas, trajetos como São Paulo–Buenos Aires, dependendo das condições operacionais, número de passageiros, carga e reservas obrigatórias de combustível. As especificações são divulgadas pela Embraer.
O avião é avaliado em aproximadamente R$ 75 milhões. O valor, entretanto, deve ser tratado como uma estimativa, pois pode variar conforme o ano de fabricação, a configuração interna, os equipamentos instalados, o câmbio e as condições da aquisição.
Dados indicariam voo procedente de Goiás
Segundo a apuração divulgada pelo Investiga MS, dados do plano ou histórico de voo indicariam que a aeronave partiu de uma pista privada rural na região de Iaciara, em Goiás, antes de pousar em Campo Grande.
A pista estaria localizada na mesma região onde funciona uma unidade rural da Agroparaná, empresa de pecuária relacionada à VLBM Participações.
Esse ponto, contudo, ainda depende da apresentação e preservação do histórico completo do voo, com identificação da fonte, horários, origem e destino. O rastreamento de uma aeronave comprova sua movimentação, mas não revela, por si só, a identidade das pessoas que estavam a bordo.
Também não está esclarecido se a viagem teve caráter oficial, político, empresarial ou particular.
Uso do avião não configura irregularidade automaticamente
O deslocamento de um agente público em aeronave privada não representa, isoladamente, a prática de uma irregularidade. Para avaliar o episódio, é necessário esclarecer quem custeou a viagem, por qual motivo o avião avião foi disponibilizado e se havia interesses empresariais relacionados a decisões do Governo do Estado.
Caso o deslocamento tenha sido feito em razão do cargo, devem existir registros administrativos, agenda oficial, justificativa e informações sobre as despesas. Se a viagem teve natureza particular, cabe ao secretário explicar em quais condições utilizou uma aeronave operada por uma holding ligada à família Batista.
A presença de um suposto integrante da segurança da Governadoria, caso seja confirmada, também pode indicar envolvimento da estrutura pública no deslocamento e precisa ser esclarecida.
É necessário verificar ainda se o secretário participou de encontros com representantes da VLBM, J&F, JBS ou empresas relacionadas e se existem pedidos de incentivos fiscais, contratos ou processos administrativos de interesse do grupo em tramitação no governo estadual.
JBS mantém investimentos e recebe incentivos em MS
A relação entre o Governo de Mato Grosso do Sul e empresas controladas pela família Batista envolve investimentos bilionários anunciados nos últimos anos.
Em outubro de 2023, Wesley Batista anunciou uma previsão de R$ 26,8 bilhões em investimentos no Estado até 2026. Entre os projetos estavam a ampliação da Eldorado Brasil, em Três Lagoas; investimentos na unidade da Seara em Dourados; projetos de mineração em Corumbá; e a expansão da capacidade industrial da JBS.
Empresas do setor frigorífico também são beneficiárias de programas estaduais de incentivo fiscal. Os valores individualizados concedidos a cada companhia, contudo, não são divulgados pelo governo sob a justificativa de sigilo fiscal.
A existência desses interesses econômicos torna necessária a transparência sobre eventuais viagens, reuniões e benefícios oferecidos a integrantes do alto escalão estadual.
Operação Vostok
A divulgação do vídeo ocorre durante a campanha eleitoral, em que Eduardo Riedel busca a reeleição ao governo e Reinaldo Azambuja disputa uma vaga no Senado dentro da chapa governista.
Azambuja foi um dos principais alvos da Operação Vostok, investigação originada da delação premiada de executivos da J&F. A Polícia Federal apurou suspeitas de pagamentos ilícitos relacionados à concessão de incentivos fiscais para empresas do grupo em Mato Grosso do Sul.
O ex-governador sempre negou as acusações e criticou os delatores.
Em outubro de 2025, o ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinou o trancamento da ação contra Azambuja, mencionando a duração excessiva do processo e insuficiência do conjunto probatório.
Em abril de 2026, o TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) anulou atos da ação envolvendo outros investigados e determinou o encaminhamento do caso para a Justiça Eleitoral. A investigação contra Azambuja foi formalmente encerrada em junho, após manifestação favorável ao arquivamento.
O encerramento do caso significa que não houve condenação de Azambuja. Decisões cautelares relacionadas ao patrimônio dos investigados, no entanto, tiveram tramitação própria no Judiciário.
Explicações ainda são necessárias
A vinculação empresarial da aeronave à família Batista é sustentada pelos registros cadastrais disponíveis. Contudo, ainda não estão comprovados documentalmente o custeio, o propósito da viagem nem eventual relação entre o deslocamento e a atuação do secretário no Governo do Estado.
Também falta confirmação independente de que o passageiro registrado nas imagens seja efetivamente Rodrigo Perez.
Para o esclarecimento do episódio, o secretário, o Governo de Mato Grosso do Sul, a VLBM, a J&F e a JBS devem informar quem autorizou e pagou o voo, qual foi o compromisso realizado, quem estava na aeronave e se houve utilização de servidores ou recursos públicos.
Catan também deverá apresentar os arquivos originais das imagens e os registros completos usados para identificar o passageiro e reconstruir o trajeto.
Até que essas respostas sejam apresentadas, o desembarque deve ser tratado como uma acusação feita por um candidato de oposição, apoiada por imagens e por informações cadastrais sobre o avião, mas ainda cercada de questões que exigem esclarecimento dos envolvidos.
Cinco malas chamam atenção no desembarque
Outro detalhe que chama atenção nas imagens é a quantidade de bagagens retiradas da aeronave. Rodrigo Perez aparece desembarcando com cinco malas, algumas delas aparentemente volumosas, apesar de a viagem ter sido apresentada até agora apenas por registros fragmentados nas redes sociais.
A quantidade de bagagens, isoladamente, não comprova qualquer irregularidade. No entanto, reforça os questionamentos sobre a duração, o roteiro e a finalidade do deslocamento. Também permanece sem resposta se o secretário cumpria uma agenda pública, política, empresarial ou particular, quem o acompanhava e quem custeou o voo.
Entre os esclarecimentos necessários está a informação sobre o período em que Perez permaneceu fora de Mato Grosso do Sul e se as cinco malas pertenciam exclusivamente a ele ou também a outros passageiros. As respostas são importantes principalmente porque as imagens mostram um homem apontado como integrante da segurança da Governadoria auxiliando na retirada das bagagens.