MS tem 44 candidatas a deputada federal; Rose Modesto, Mara Caseiro e Camila Jara aparecem entre os nomes mais competitivos
MS tem 44 candidatas a deputada federal; Rose Modesto, Mara Caseiro e Camila Jara aparecem entre os nomes mais competitivos
Mato Grosso do Sul tem 44 mulheres concorrendo às oito cadeiras reservadas ao Estado na Câmara dos Deputados nas eleições de 2026. A presença feminina na disputa representa uma possibilidade concreta de ampliar a participação das mulheres nos espaços onde são elaboradas as leis e tomadas decisões que afetam diretamente a sociedade.
Entre as candidatas com maior viabilidade eleitoral aparecem Rose Modesto (União Brasil), Mara Caseiro (PL) e Camila Jara (PT). Isa Marcondes (Republicanos), Viviane Luiza (PSDB) e Bia Cavassa (PSDB) também figuram entre os nomes femininos com maior projeção dentro de suas respectivas chapas.
Eleger mulheres é necessário para fortalecer a presença feminina na política. Entretanto, ocupar uma cadeira no Congresso apenas por pertencer ao sexo feminino não assegura, por si só, que as demandas das mulheres serão efetivamente defendidas.
A representação precisa vir acompanhada de compromisso público, atuação parlamentar e disposição para enfrentar problemas que fazem parte da realidade feminina, como a violência doméstica, o feminicídio, a desigualdade salarial, a falta de proteção às vítimas e as dificuldades de acesso à saúde e à independência financeira.
Três candidatas lideram
Na pesquisa espontânea do Instituto Ranking Brasil Inteligência, realizada entre os dias 23 e 27 de agosto, Rose Modesto aparece com 3,5% das intenções de voto. Ela lidera a Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, ficando à frente inclusive de deputados federais que buscam a reeleição.
Mara Caseiro registra 2,4% e ocupa a terceira colocação dentro da chapa do PL, atrás dos deputados Marcos Pollon e Rodolfo Nogueira. O resultado coloca a deputada estadual em posição competitiva, embora a disputa interna no partido seja uma das mais acirradas.
Camila Jara aparece com 2,3% e lidera a Federação Brasil da Esperança, composta por PT, PV e PCdoB. Por exercer atualmente o mandato de deputada federal e estar à frente dos demais nomes de sua chapa, ela também possui chances concretas de reeleição.
Isa Marcondes alcança 1,2% e disputa diretamente a liderança do Republicanos com Jaime Verruck e Beto Pereira. No PSDB, Viviane Luiza aparece com 1,2%, enquanto Bia Cavassa registra 0,7%.
Os números, entretanto, não representam uma previsão definitiva. Na eleição proporcional, a conquista de uma vaga depende tanto da votação individual quanto do total de votos obtido pelo partido ou pela federação.
Representação precisa sair do discurso
O aumento da bancada feminina será importante, mas a sociedade precisa observar quais propostas essas candidatas apresentam e como pretendem atuar diante da violência que atinge diariamente milhares de mulheres.
Uma candidata não pode recorrer às pautas femininas apenas durante a campanha e abandoná-las depois de eleita. Também não basta aparecer em fotografias, participar de eventos ou repetir discursos preparados para as redes sociais. Representar exige votar, propor, fiscalizar e cobrar.
As mulheres precisam saber quais candidatas defendem medidas efetivas de proteção, ampliação da rede de atendimento, funcionamento adequado das delegacias especializadas, fiscalização das medidas protetivas e punição rigorosa para agressores e feminicidas.
É importante verificar, ainda, quem está disposta a cobrar investimentos em casas de acolhimento, atendimento psicológico, autonomia financeira e monitoramento dos homens que oferecem risco às vítimas.
“Queremos leis mais duras”
O Estado Diário conversou com mulheres que vivem ou já conseguiram romper ciclos de violência doméstica. A reportagem também ouviu familiares que perderam filhas, mães, irmãs e amigas para o feminicídio.
“Durante muito tempo, eu não entendia que vivia um ciclo de violência. Ele me agredia, pedia perdão e prometia mudar. Depois, tudo começava novamente. Quando procurei ajuda, eu já estava com medo de morrer”, relata “Mariana”, nome fictício de uma mulher que afirma ter sofrido violência doméstica durante anos.
“Minha filha pediu ajuda, denunciou e tentou recomeçar, mas não teve tempo. Hoje, nossa família carrega uma dor que nunca vai acabar. Não queremos discursos; queremos medidas capazes de impedir que outras mães enterrem suas filhas”, afirma “Dona Helena”, nome fictício atribuído à mãe de uma vítima de feminicídio.
“Denunciar foi apenas o primeiro passo. Mesmo depois de procurar a polícia, continuei com medo de encontrá-lo na rua ou na porta da minha casa. A vítima denuncia, mas precisa ter certeza de que será protegida”, afirma “Juliana”, que pediu para não ser identificada.
“Depois que minha irmã morreu, todos perguntaram por que ela não foi embora antes. Poucos perguntaram por que o agressor se sentia tão livre para ameaçá-la. A responsabilidade nunca pode ser colocada sobre a vítima”, declara “Renata”, irmã de uma mulher assassinada.
Os relatos mostram que o clamor por leis mais duras não está limitado ao aumento das penas. As entrevistadas cobram fiscalização das medidas protetivas, monitoramento dos agressores, atendimento rápido e uma rede pública capaz de proteger a mulher desde o primeiro pedido de socorro. Para elas, a presença feminina no Congresso somente terá significado real se as eleitas transformarem essa dor em propostas, fiscalização e ações concretas.
Muitas vítimas convivem com o medo mesmo depois de procurar a polícia e obter uma medida protetiva. Para essas mulheres, a prisão do agressor seguida de uma rápida colocação em liberdade transmite sensação de insegurança e abandono.
As famílias atingidas pelo feminicídio também cobram que os autores dos crimes recebam punições compatíveis com a gravidade dos atos e que o Estado atue antes de a ameaça se transformar em tragédia.
O pedido por maior rigor não se resume ao aumento das penas. Ele envolve o cumprimento das leis existentes, a rapidez das investigações, o monitoramento de agressores, a fiscalização das medidas protetivas e uma rede pública capaz de acolher a vítima no momento em que ela decide denunciar.
Câmara pode endurecer a legislação
A eleição para deputada federal tem relação direta com essa cobrança. A Câmara dos Deputados participa da elaboração e da alteração das leis penais, analisa propostas relacionadas ao combate à violência contra a mulher e fiscaliza a execução das políticas públicas pelo Governo Federal.
As candidatas precisam dizer claramente se defendem o endurecimento da legislação, quais mudanças consideram necessárias e como pretendem impedir que as medidas aprovadas permaneçam apenas no papel.
Também devem assumir compromissos sobre recursos para políticas de proteção, estrutura das instituições e integração entre União, estados e municípios.
Mato Grosso do Sul precisa de mais mulheres no Congresso, mas precisa, sobretudo, de parlamentares comprometidas com as mulheres. A presença feminina só se transforma em representação verdadeira quando o mandato dá voz às vítimas, enfrenta interesses políticos e trabalha para evitar que outras famílias vivam a dor de perder alguém para o feminicídio.
Nas urnas, o eleitorado terá a oportunidade de ampliar o espaço político feminino. Antes do voto, porém, será necessário perguntar: essas candidatas estão preparadas para representar as mulheres ou apenas querem ocupar uma cadeira em nome delas?