O reajuste aplicado pela Cassems (Caixa de Assistência dos Servidores de Mato Grosso do Sul) reacendeu uma discussão antiga e cada vez mais sensível entre os servidores públicos estaduais: até que ponto o plano de saúde dos funcionários públicos ainda consegue cumprir o papel de oferecer atendimento digno diante do aumento constante das mensalidades e das reclamações sobre a qualidade dos serviços?
O tema ganhou força nesta terça-feira (19), durante debate na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (Alems), após deputados questionarem o salto no valor cobrado para cônjuges dependentes. A contribuição, que antes girava em torno de R$ 35, passou para cerca de R$ 450 em alguns casos, provocando indignação entre beneficiários.
O presidente da Cassems, Ricardo Ayache, defendeu a medida alegando necessidade de manter a sustentabilidade financeira da caixa de assistência. O argumento, embora tecnicamente compreensível diante do aumento dos custos da saúde suplementar no país, esbarra em uma realidade enfrentada diariamente pelos usuários: o sentimento crescente de que os valores pagos aumentam em ritmo muito superior à qualidade do atendimento oferecido.
Entre servidores estaduais, as reclamações se acumulam há anos. Um dos principais alvos de críticas é justamente o chamado “fator moderador” — mecanismo criado para dividir parte dos custos de consultas, exames e procedimentos entre usuário e plano. Na prática, muitos servidores afirmam que além da mensalidade elevada, acabam surpreendidos por cobranças extras que tornam o atendimento cada vez mais pesado no orçamento familiar.
O problema se agrava especialmente para aposentados e famílias com dependentes, que muitas vezes precisam escolher entre manter o plano ou arcar com outras despesas básicas. O aumento abrupto para cônjuges dependentes virou símbolo de um desgaste que já vinha sendo silenciosamente acumulado entre os beneficiários.
Outro ponto constantemente citado pelos usuários é a dificuldade de acesso aos serviços. Consultas com especialistas frequentemente ultrapassam 20 ou até 30 dias de espera, mesmo em cidades maiores como Campo Grande, Dourados e Três Lagoas. Em algumas especialidades, encontrar horário disponível rapidamente virou exceção.
Enquanto isso, clínicas, laboratórios e profissionais credenciados também demonstram insatisfação crescente com a operadora. Nos bastidores do setor de saúde, são frequentes as reclamações sobre atrasos nos pagamentos e dificuldades na negociação de reajustes. Como consequência, muitos prestadores acabam reduzindo atendimentos, limitando agendas ou encarecendo exames e procedimentos para compensar perdas financeiras.
O resultado desse cenário é um círculo de desgaste que recai diretamente sobre o servidor público, principal financiador do sistema. De um lado, a Cassems argumenta que precisa elevar receitas para manter o equilíbrio financeiro diante do envelhecimento da carteira e do aumento dos custos hospitalares. Do outro, beneficiários questionam por que o peso da conta sempre acaba recaindo sobre quem já contribui mensalmente há anos.
Criada para ser um modelo de assistência voltado aos servidores estaduais, a Cassems cresceu ao longo das últimas décadas e se transformou em uma das maiores operadoras de saúde de Mato Grosso do Sul. Porém, junto com o crescimento, vieram também desafios estruturais típicos dos grandes planos de saúde: pressão financeira, dificuldade de ampliar rede credenciada e aumento contínuo da demanda por atendimentos.
Na Assembleia Legislativa, parlamentares defenderam mais transparência sobre os critérios utilizados nos reajustes e cobraram debate mais amplo com os servidores antes da adoção de medidas que impactam diretamente milhares de famílias.
O debate expõe um dilema cada vez mais evidente: enquanto os custos da saúde seguem disparando em todo o país, os beneficiários cobram que o aumento das contribuições venha acompanhado de melhorias concretas no atendimento — algo que muitos afirmam ainda estar longe da realidade enfrentada nas filas, nos agendamentos demorados e na dificuldade de acesso a exames e especialistas.