Operação João Romão apura suspeitas de fraude em licitações envolvendo a Agility; documento do MPF confirma indiciamentos e investigação também sobre contratos em Ladário
O inquérito policial relacionado à Operação João Romão, que investiga possíveis irregularidades em contratos de obras firmados durante a gestão de Marcelo Iunes na Prefeitura de Corumbá, passará a tramitar na 5ª Vara Federal de Campo Grande, especializada em lavagem de dinheiro.
Segundo reportagem publicada pelo portal O Jacaré nesta sexta-feira (2), a juíza federal substituta Jéssica Flores Silva reconheceu a competência da unidade em decisão divulgada no Diário da Justiça Eletrônico Nacional de quinta-feira (1º). A investigação envolve a empresa Agility Serviços Integrados Ltda., que acumulou aproximadamente R$ 17 milhões em contratos com o município. Esse montante corresponde ao volume das contratações mencionadas nas reportagens, não a um prejuízo integral comprovado.
Suspeitas de movimentações financeiras
Conforme os trechos da decisão reproduzidos pelo portal, a investigação identificou indícios de possíveis fraudes licitatórias e movimentações financeiras que poderiam estar relacionadas à lavagem de dinheiro.
Entre os elementos citados estão depósitos fracionados incompatíveis com a capacidade econômica declarada, depósitos em espécie realizados longe do domicílio dos investigados e aquisição de imóvel mediante pagamentos fracionados em dinheiro.
A decisão trata da definição do juízo responsável pelo inquérito. Não representa condenação nem comprovação definitiva das suspeitas. O procedimento já havia passado pela Justiça Federal de Corumbá antes do encaminhamento à vara especializada da Capital.
Operação foi deflagrada em julho de 2024
A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram a Operação João Romão em 3 de julho de 2024. Foram mobilizados 52 policiais federais e sete servidores da CGU para cumprir 14 mandados de busca e apreensão em Corumbá e Campo Grande.
O foco era apurar possíveis crimes licitatórios e de corrupção na Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos. Na ocasião, as autoridades informaram que a empresa investigada havia firmado contratos superiores a R$ 12 milhões entre 2022 e 2024, incluindo aproximadamente R$ 6 milhões em recursos federais destinados principalmente a obras esportivas.
A investigação apontou a suspeita de que o então secretário Ricardo Campos Ametlla teria ligação com a empresa beneficiada por licitações da própria pasta. Carlos Cesar Paz Gomes figurava formalmente como responsável pela Agility, enquanto os investigadores apuravam se Ametlla seria seu proprietário de fato.
Durante as buscas, foram apreendidos mais de R$ 100 mil em dois endereços. Ametlla deixou o comando da secretaria poucos dias depois da operação, em julho de 2024.
Documento do MPF confirma indiciamentos
Uma portaria do Ministério Público Federal publicada em 22 de abril de 2026 confirma que a apuração criminal resultou no indiciamento de investigados por suspeitas de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O documento não individualiza, nesse trecho, quais pessoas foram indiciadas por cada conduta.
A portaria, assinada pelo procurador da República Alexandre Jabur, converteu uma notícia de fato em inquérito civil para investigar possíveis atos de improbidade administrativa e danos ao patrimônio público.
O objeto inclui contratos das prefeituras de Corumbá e Ladário com a Agility. O MPF menciona indícios de associação entre agentes públicos e particulares e aponta que relatório da CGU identificou aceitação de documentos considerados inidôneos para comprovar capacidade técnica e possível direcionamento de licitações.
A apuração cível busca verificar responsabilidades e eventual necessidade de ressarcimento aos cofres públicos.
Contratos foram suspensos em 2024
Em agosto de 2024, após determinação do Tribunal de Contas do Estado, a Prefeitura de Corumbá suspendeu contratos e pagamentos à Agility.
A medida atingiu três contratos do Centro Integrado de Esportes, a obra destinada à instalação do Centro de Atendimento ao Cidadão e a reforma do Centro de Saúde da Mulher. Segundo os valores divulgados na época, essas contratações somavam aproximadamente R$ 16,6 milhões.
Naquele momento, a suspensão foi estabelecida por 120 dias. A reportagem também informou que os serviços do Ecoparque Cacimba da Saúde e do Museu Casa de Memória Dr. Gabi já estavam concluídos e não foram incluídos na paralisação.
Prefeitura rescindiu contrato do antigo armazém
Em novembro de 2024, o município formalizou a rescisão unilateral do contrato de reforma e adequação do antigo Armazém Ferroviário, previsto para abrigar o Centro de Atendimento ao Cidadão.
O contrato tinha valor aproximado de R$ 7,4 milhões. Até a rescisão, haviam sido pagos R$ 274.020,42. Segundo a publicação sobre o encerramento, cerca de 96,3% dos serviços previstos não haviam sido executados.
Esse histórico reforça a necessidade de distinguir valores contratados, pagamentos realizados e eventual dano apurado pela investigação.
Defesa negou existência de crime
Em manifestação publicada em 2025, o advogado André Borges, que representava Ricardo Ametlla, afirmou que o ex-secretário confiava no arquivamento da investigação e sustentou a ausência de crime. Essa declaração é anterior à decisão divulgada nesta semana.
Na época da operação, em 2024, a Prefeitura de Corumbá informou que estava à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos. Marcelo Iunes declarou que os órgãos federais estavam cumprindo seu papel ao investigar os fatos.
Não foi localizada, nas fontes consultadas, manifestação atualizada dos envolvidos sobre a mudança de competência. Também não foi possível confirmar o recebimento de denúncia criminal ou uma condenação relacionada a esse inquérito.
Nota de apuração: a íntegra da decisão de outubro não foi localizada; os detalhes dessa movimentação foram atribuídos à reportagem que reproduziu seus trechos. A portaria do MPF de abril de 2026 foi consultada diretamente.