A corrida pelas 24 vagas da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (Alems) desenha um cenário de extrema instabilidade para o eleitorado da região do Pantanal. Embora o ex-prefeito de Corumbá, Marcelo Iunes (PP), ostente musculatura política para figurar entre os votados, sua candidatura carrega uma vulnerabilidade jurídica sem precedentes: a iminência real de perda de mandato logo após a apuração das urnas. Paralelamente, nomes tradicionais como Paulo Duarte (PSDB) e forças emergentes como Glaúcia Iunes (Avante) tencionam o tabuleiro proporcional em condições técnicas e de elegibilidade drasticamente distintas.
O fator Marcelo Iunes: Eleição viável, mandato temporário
Matematicamente, Marcelo Iunes possui chances de vitória devido ao seu recall político e à estrutura do Progressistas. Contudo, juristas avaliam o seu eventual mandato como uma “cadeira de vidro”.
O candidato concorre sob o peso de ser réu por corrupção eleitoral e falsidade ideológica no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MS), em uma denúncia aceita por unanimidade pela corte por esquemas de compra de votos. Caso o processo avance para uma condenação colegiada de mérito após a instrução das Cartas de Ordem, a Lei da Ficha Limpa será ativada de imediato, resultando na cassação do diploma ou do mandato parlamentar, além de torná-lo inelegível por 8 anos. A situação é agravada na esfera cível, onde o TJMS manteve por unanimidade sua condenação por improbidade administrativa e nepotismo, executando multas na casa de R$ 250.346,76. Votar em Iunes envolve o risco real de o eleitor ver seu voto anulado em poucos meses de legislatura.
Paulo Duarte: Favoritismo respaldado por segurança jurídica
Em uma posição de estabilidade oposta, o ex-secretário de Fazenda e ex-prefeito Paulo Duarte (PSDB) caminha a passos firmes para consolidar seu retorno definitivo ao parlamento estadual. Duarte figura no topo das pesquisas de intenção de voto — registrando 1,55% das citações estaduais no levantamento do Instituto Ranking Pesquisa.
Beneficiado pela poderosa estrutura da Federação PSDB/Cidadania — ligada ao governador Eduardo Riedel —, Duarte canaliza o eleitorado que busca representação pantaneira experiente e, crucialmente, livre de pendências judiciais graves. Sua campanha é vista no meio político como o porto mais seguro para investimentos de capital político em Corumbá.
Glaúcia Iunes: O desafio matemático do quociente
Correndo por fora na divisão do eleitorado corumbaense, Glaúcia Iunes (Avante) desponta com chances moderadas, porém reais. Respaldada pelos quase 17 mil votos obtidos no pleito de 2022 e aparecendo com 0,70% nas pesquisas de amostragem estadual, seu principal obstáculo não é o desempenho individual, mas sim a fragilidade da chapa isolada do Avante. Para se eleger, Glaúcia precisa que a somatória total de votos de sua legenda atinja o quociente eleitoral exigido pela Justiça Eleitoral; caso contrário, corre o risco de ficar de fora mesmo sendo bem votada.
O risco da pulverização: Pantanal sem voz na Assembleia
A conjunção dessas candidaturas locais acende um alerta histórico: a microrregião de Corumbá e Ladário corre o risco real de ficar sem nenhum representante na Alems. Embora a região possua eleitores suficientes para garantir cadeiras no Legislativo, o número inflado de candidatos locais pulveriza o eleitorado.
Esse isolamento é severamente agravado pela invasão de candidatos de fora, que historicamente extraem milhares de votos da região sem dar retorno proporcional. Se a pulverização persistir, somada à possível anulação futura dos votos de Marcelo Iunes pela Justiça Eleitoral e à barreira do quociente partidário para Glaúcia Iunes, o maior colégio eleitoral do Pantanal corre o risco de ver seu expressivo capital político totalmente dispersado, transferindo as vagas da região para candidatos com bases concentradas em Campo Grande ou no Bolsão sul-mato-grossense.