Na véspera da eleição, partidos projetam bancadas, candidatos enfrentam desgastes e Corumbá e Ladário aguardam para saber se terão sua força eleitoral convertida em representação
Por Lu Barreto — Estado Diário
Neste sábado (3), último dia antes da votação, a política de Mato Grosso do Sul vive entre a confiança dos discursos e a ansiedade das contas. Nas ruas, carreatas. Nas chapas, disputa por posições. Nos bastidores, a pergunta que nenhum sorriso de campanha consegue esconder: quem chega e quem fica pelo caminho?
A urna de domingo terá uma vantagem sobre os palanques: não aceita discurso depois da tecla “confirma”.
Bancadas no papel, cadeiras em disputa
O PL chega à reta final com expectativa de formar a maior bancada da Assembleia Legislativa, seguido pela Federação União Progressista. Republicanos, PSDB, MDB e PT também fazem suas projeções, segundo análise publicada pelo Investiga MS.
O problema das contas partidárias é que, somadas, frequentemente parecem exigir uma Assembleia maior. Cada legenda enxerga espaço para crescer; o eleitor é quem terá de acomodar tantas expectativas nas cadeiras disponíveis.
Essas avaliações não garantem resultados. Também expõem uma disputa menos visível: a concorrência entre candidatos da própria chapa. A foto pode ser coletiva, mas a tensão pela última vaga é bastante individual.
Avante: a segunda cadeira ainda precisa de votos
Lídio Lopes sustenta que o Avante conquistará duas vagas. Outras avaliações partidárias citadas pelo Investiga MS apontam apenas uma. Entre a confiança do deputado e a cautela dos concorrentes, está uma cadeira que ainda precisa existir no resultado.
Glaucia Iunes aparece nessa disputa, assim como Rogério Rohr, Dr. Ruy Costa e Vanildo Neves. Para Corumbá e Ladário, o interesse ultrapassa o desempenho individual: está em jogo a possibilidade de fortalecer a presença da região no Legislativo estadual.
Mas expectativa não é cadeira reservada. O total de votos do Avante e a posição dos candidatos serão decisivos. Até lá, qualquer anúncio de duas vagas garantidas pertence ao discurso de campanha.
Dinheiro em envelopes, perguntas fora deles
Lídio também chega à votação sob cobrança por esclarecimentos após a prisão do assessor José Antônio Pires de Souza, o Zé Bocão. Conforme os detalhes divulgados sobre a ocorrência, foram encontrados R$ 127 mil em dinheiro, separados em envelopes, e materiais de campanha do parlamentar. O caso é investigado sob suspeita de compra de votos.
Origem, finalidade e destinatários dos valores são questões centrais. Dinheiro organizado não dispensa explicação organizada.
A presença da propaganda eleitoral não comprova, por si só, participação do deputado em eventual crime. Tampouco elimina a necessidade de respostas. A investigação deve estabelecer responsabilidades; à campanha cabe esclarecer o que souber sobre o episódio.
Senado: favoritismo não autoriza comemoração antecipada
Na pesquisa IPR divulgada na sexta-feira, Reinaldo Azambuja aparece com 35,3% dos votos válidos e Capitão Contar com 31,2%. Soraya Thronicke registra 13%, e Vander Loubet, 11,2%.
O levantamento oferece um cenário favorável aos dois candidatos do PL. Ainda assim, pesquisa não entrega diploma. A distância entre favoritismo e vitória será percorrida pelo eleitor.
O instituto ouviu 784 pessoas entre 26 e 30 de setembro, com margem de erro de 3,5 pontos percentuais, confiança de 95% e registro MS-08995/2026. Os dados retratam aquele período, sem substituir a apuração de domingo.
Corumbá: quando o palanque chega à porta de casa
O episódio envolvendo Chicão Vianna e Dr. Oséas Ohara ganhou desdobramento policial. Segundo o Capital do Pantanal, o médico de 74 anos registrou ocorrência após a manifestação do vereador diante de sua residência, e a família apresentou representação criminal.
A apuração deverá esclarecer os fatos e ouvir os envolvidos. Politicamente, porém, a cobrança já está posta: quem pede uma cadeira na Assembleia precisa explicar também como exerce o respeito fora dela.
Fiscalizar uma administração é dever parlamentar. Transformar a porta de uma residência em cenário de confronto exige outra justificativa. E, diante da queda de um idoso, a prioridade esperada é o cuidado.
O registro policial não representa condenação. O episódio, contudo, oferece ao eleitor um elemento para avaliar postura, equilíbrio e responsabilidade.
Carro oficial não é extensão de comitê
A abordagem de vereadores de Aparecida do Taboado com materiais eleitorais em um veículo oficial também deixou perguntas. Os ocupantes disseram que retornavam de uma agenda relacionada ao município.
A explicação sobre a viagem precisa ser acompanhada de esclarecimentos sobre a propaganda transportada. Patrimônio público exige finalidade pública — uma distinção que deveria ser compreendida antes de entrar no carro.
O caso depende de apuração, mas a cobrança por transparência é imediata.
Uma pausa que dispensa cálculo político
Fábio Trad interrompeu a campanha na sexta-feira para acompanhar a esposa, Flávia, submetida a uma cirurgia de emergência por apendicite. Segundo a coluna Jogo Aberto, anunciou intenção de retomar as atividades neste sábado.
Aqui, a política deve abrir espaço para a vida. Uma emergência familiar não precisa ser transformada em cálculo eleitoral. Cabe desejar recuperação e respeitar a decisão de estar presente.
Domingo, a conta chega ao eleitor
Para Corumbá e Ladário, permanece uma questão essencial: a região conseguirá transformar seus votos em representação na Assembleia? Para o Estado inteiro, há outra: quais condutas estamos dispostos a aceitar de quem pretende nos representar?
O eleitor pode considerar propostas, experiência e compromissos. Deve também observar como o candidato responde a cobranças, trata adversários e distingue interesses eleitorais de responsabilidades públicas.
Neste sábado, ainda há tempo para promessas e carreatas. Amanhã, haverá uma escolha individual, secreta e decisiva. Convém levar para a urna mais do que a colinha: memória.