Guerra de facções impulsiona tribunais do crime e atinge recorde de mortes em Mato Grosso do Sul

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A disputa territorial entre as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) atingiu o seu ápice de letalidade em Mato Grosso do Sul. De acordo com o promotor de Justiça Felipe Almeida Marques, coordenador da Unidade de Investigação de Crimes Cibernéticos (UICC) do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), o confronto entre os grupos gerou o ano mais sangrento da história recente do estado, com uma estimativa de que mais de 100 pessoas já foram mortas em decorrência direta desse conflito.

Essa engrenagem violenta tem cobrado um preço alto, especialmente da juventude periférica. Investigações e relatórios de segurança pública revelam que adolescentes e jovens adultos, com idades entre 15 e 24 anos, tornaram-se o elo mais frágil e as principais vítimas dos chamados “tribunais do crime”.

O perfil dos capturados por esse sistema paralelo de julgamento é marcado pela vulnerabilidade social. Atraídos pela ilusão de ascensão financeira ou por busca de proteção em áreas dominadas, muitos são recrutados pelas organizações. Por causa da menoridade penal ou da pouca idade, as lideranças frequentemente os utilizam em funções de alto risco, como o transporte de entorpecentes, vigilância de bocas de fumo e monitoramento de forças policiais.

Do recrutamento à execução

A dinâmica da criminalidade na fronteira e nas grandes cidades do estado transformou esses jovens em peças descartáveis. Fatores banais ou suspeitas infundadas são suficientes para motivar o decreto de morte de um integrante. Entre as principais causas apontadas por investigações policiais estão o desvio de pequenas quantias de dinheiro, o consumo próprio de cargas de droga e a “dupla militância” — quando o jovem é suspeito de repassar informações ou simpatizar com a facção rival.

O exibicionismo em redes sociais também tem se mostrado um gatilho fatal e monitorado de perto pelas autoridades. Postagens com menções a símbolos, pichações ou termos associados a determinado grupo criminoso transformam os perfis digitais em alvos fáceis para os rivais.

O ritual do cárcere

Os tribunais do crime funcionam sob uma estrutura de extrema crueldade. As vítimas costumam ser atraídas para emboscadas em imóveis abandonados ou residências de comparsas, onde permanecem em cárcere privado. Antes do desfecho, os jovens passam por longos interrogatórios e sessões de tortura física e psicológica.

A decisão final sobre a vida ou a morte da vítima raramente é tomada pelos executores locais. O “veredito” costuma ser transmitido por meio de videoconferências ou ligações telefônicas conduzidas por lideranças que cumprem pena dentro de estabelecimentos penais do estado. Uma vez emitido o “decreto”, as vítimas são executadas de forma sumária e, em muitos casos, os corpos são ocultados em regiões de mata ou cemitérios clandestinos na periferia.

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