Prefeito de Ivinhema responde com insultos às mulheres e à imprensa que criticaram vídeo

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Ao atacar a imprensa e classificar jornalistas de Mato Grosso do Sul como “sujos”, “mentirosos”, “vagabundos” e “fuleros”, o prefeito de Ivinhema, Juliano Ferro (PL), demonstrou que parece aceitar a exposição pública apenas quando ela lhe rende aplausos. Quando o conteúdo publicado por ele mesmo provoca críticas, a estratégia é atacar quem noticia e desqualificar quem questiona.

Durante uma live realizada nesta quinta-feira (27), Juliano reagiu às matérias sobre vídeos gravados durante a Festa do Peão de Barretos. Nas imagens divulgadas pelo próprio prefeito, ele aparece em clima de festa sobre uma caminhonete, ao lado de um manequim feminino.

Em uma das cenas, o veículo passa sobre a boneca e esmaga seu rosto. Depois, Juliano estapeia o manequim, faz movimentos interpretados como insinuações sexuais e o exibe com a face deformada. A gravação tem como trilha sonora uma música com referências a uma relação sexual agressiva.

As imagens causaram indignação, especialmente entre mulheres que consideraram a encenação ofensiva e associada à banalização da violência de gênero. Em vez de reconhecer que o conteúdo permitia essa interpretação ou admitir que a exposição poderia ter sido inadequada para um agente público, Juliano escolheu atacar.

“Vocês são caras de pau ao dizer que eu incentivei a violência contra as mulheres. Sou pai de três mulheres”, declarou. Em outro momento, afirmou: “Cambada de vagabundo. Estão tentando achar algo ruim para prejudicar a minha imagem”.

Ser pai de mulheres, porém, não imuniza ninguém contra críticas nem transforma automaticamente qualquer comportamento em aceitável. A questão central não é a vida familiar do prefeito, mas a mensagem transmitida pelas imagens que ele decidiu produzir, publicar e compartilhar com milhares de pessoas.

O prefeito não desaparece durante as férias

Na tentativa de separar o cargo de sua conduta pessoal, Juliano afirmou nas redes sociais que “o prefeito estava em casa” e que “Juliano Ferro estava de férias”. A frase pode soar conveniente, mas não encontra respaldo na realidade da vida pública.

O cidadão Juliano Ferro pode estar de férias. O prefeito de Ivinhema, não.

Mandatos eletivos não são personagens que podem ser guardados no armário durante uma viagem. Mesmo fora do gabinete, Juliano continua sendo prefeito, representante institucional do município e uma figura submetida permanentemente ao escrutínio público. Seus atos, especialmente quando publicados em perfis usados para divulgar sua atividade política, produzem consequências para a imagem do cargo e da cidade que representa.

Isso não significa que um prefeito esteja proibido de viajar, divertir-se ou participar de festas. Significa apenas que a liberdade individual de um homem público convive com uma responsabilidade maior: compreender que sua conduta será observada e poderá ser questionada.

Não existe botão capaz de desligar o prefeito e deixar apenas o cidadão em funcionamento.

Crítica não é perseguição

Juliano também justificou sua presença em Barretos afirmando que trabalha pela internet e encontra personalidades políticas e artísticas durante o evento. A explicação, entretanto, não responde ao ponto principal. O debate não está restrito ao fato de ele viajar ou participar da festa, mas às cenas que escolheu protagonizar e divulgar.

Ao dizer que nunca viu “jornalistazinho fulero” acompanhar seu trabalho em Ivinhema, o prefeito tenta desviar a discussão. Eventuais realizações administrativas não concedem salvo-conduto para comportamentos inadequados nem impedem a imprensa de abordar episódios negativos.

Governantes não podem desejar cobertura jornalística apenas para inaugurações, anúncios e discursos favoráveis. Fiscalizar, questionar e repercutir críticas também fazem parte do trabalho da imprensa. Quem ocupa um cargo público precisa conviver com o contraditório, mesmo quando ele causa desconforto.

Se Juliano considerava que as reportagens distorciam os fatos, poderia apresentar sua versão, contextualizar as imagens e responder objetivamente aos questionamentos. Preferiu, contudo, recorrer aos insultos e tratar jornalistas e críticos como inimigos.

A exposição foi feita pelo próprio prefeito

Há ainda uma contradição evidente: Juliano reclama da repercussão de cenas que ele próprio tornou públicas. Não se trata de uma gravação clandestina feita em um ambiente privado. O conteúdo foi produzido e publicado pelo próprio gestor, que decidiu transformar sua diversão em espetáculo nas redes sociais.

Ao fazer isso, abriu espaço para interpretações, críticas e cobranças. A repercussão não nasceu de uma invenção da imprensa, mas do material que o prefeito colocou em circulação.

Uma internauta resumiu a questão ao afirmar que aproveitar a vida é uma coisa, enquanto expor uma situação que admite interpretação relacionada à violência é outra. A observação toca no ponto essencial: a liberdade de diversão não elimina o dever de discernimento.

Cargo público exige postura

Mato Grosso do Sul enfrenta uma realidade grave de violência doméstica e feminicídios. Nesse contexto, imagens de um prefeito estapeando um manequim feminino, fazendo insinuações sexuais e exibindo a boneca depois de ela ter o rosto esmagado por um veículo não podem ser tratadas como uma brincadeira incapaz de gerar questionamentos.

O episódio exigia do prefeito serenidade, responsabilidade e disposição para ouvir. Em vez disso, ele respondeu com agressividade justamente às mulheres que se sentiram ofendidas e à imprensa que repercutiu o caso.

Juliano Ferro pode discordar das críticas. O que não pode é imaginar que o mandato lhe garante o direito de determinar quais fatos merecem ser noticiados ou de insultar profissionais sempre que a cobertura não favorece sua imagem.

A liturgia do cargo não exige uma existência sem lazer, espontaneidade ou diversão. Exige equilíbrio, respeito e consciência de que a autoridade pública continua existindo fora do gabinete.

Juliano pode estar de férias. A responsabilidade de Juliano Ferro, prefeito de Ivinhema, não está.

Conduta pode gerar responsabilização

Além da repercussão política, as declarações de Juliano Ferro podem produzir consequências jurídicas. Expressões como “vagabundos”, “jornalistazinhos fuleros”, “sujos” e “mentirosos” podem ser analisadas como possíveis crimes contra a honra, especialmente injúria ou difamação, caso os jornalistas ou veículos atingidos sejam identificáveis.

As cenas envolvendo o manequim feminino, embora possam ser consideradas ofensivas e incompatíveis com a postura esperada de um agente público, não configuram automaticamente crime de violência contra a mulher, pois não houve vítima humana diretamente atingida. Isso não elimina, contudo, a possibilidade de responsabilização no campo político.

O Decreto-Lei nº 201/1967 estabelece como infração político-administrativa o prefeito “proceder de modo incompatível com a dignidade e o decoro do cargo”. Qualquer eleitor pode apresentar denúncia à Câmara Municipal, acompanhada da descrição dos fatos e das provas. Caberia aos vereadores decidir sobre a abertura de uma comissão processante, assegurando ao prefeito o direito de defesa.

Caso o procedimento avance, uma eventual cassação dependeria do voto favorável de pelo menos dois terços dos membros da Câmara. Portanto, não é possível afirmar antecipadamente que Juliano cometeu crime ou que perderá o mandato, mas sua condição de prefeito não o protege de apurações criminais, civis ou político-administrativas.

Estar de férias não suspende o mandato, não elimina os deveres vinculados ao cargo nem concede imunidade para ofender profissionais da imprensa. Juliano Ferro poderá sustentar que falava como cidadão, mas continuará respondendo publicamente — e, eventualmente, juridicamente — como prefeito de Ivinhema.

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