Era um dia muito feliz. Adrielle estava realizada porque tinha acabado de terminar o curso técnico de elétrica industrial e já estava com o serviço garantido. Ela só pensava em dar um futuro melhor para a filha, afirmou a irmã
O relato emocionado da irmã, Marielle Rodrigues, resume o sonho interrompido de Adrielle Encarnação Rodrigues, de 26 anos, assassinada a facadas na última sexta-feira (31), em Corumbá. Mais do que uma estatística, Adrielle era mãe, filha, irmã e uma jovem que comemorava uma nova fase da vida. Seu futuro foi destruído pela violência.

Ela se tornou a 18ª vítima de feminicídio registrada em Mato Grosso do Sul em 2026.
Enquanto campanhas de conscientização ocupam as redes sociais, mulheres continuam sendo mortas por homens que não aceitam o fim de um relacionamento.
Mãe de uma menina de apenas cinco anos, Adrielle nasceu e cresceu em Corumbá. Segundo a família, era conhecida pelo jeito alegre, extrovertido e pela capacidade de transformar qualquer ambiente com seu sorriso.
“Ela era uma menina doce. Nunca tinha dia ruim para ela. Era sempre muito alegre, muito brincalhona”, recorda a irmã.
O relacionamento com Douglas Richard Ribeiro Valverde durou cerca de quatro anos, marcado por separações e reconciliações. Eles estavam separados havia cinco meses, período em que Adrielle voltou a morar com a mãe e a filha.
Mas, segundo a família, o suspeito nunca aceitou o fim do relacionamento.
“Ele nunca deixava minha irmã em paz. Era muito possessivo, extremamente ciumento e sempre dizia que ia mudar. Ela acreditava”, contou Marielle.
As discussões eram constantes e já haviam sido presenciadas pelos familiares. Em diversas ocasiões, Adrielle apareceu com hematomas, mas preferia silenciar sobre o que acontecia.
Um silêncio comum entre vítimas de relacionamentos abusivos.
Silêncio alimentado pelo medo, pela esperança de mudança e, muitas vezes, pela dependência emocional.
Após o crime, Douglas alegou que teria sido atacado pela vítima durante uma discussão e que reagiu desferindo um golpe de faca.
A perícia, porém, constatou que Adrielle foi atingida por quatro facadas, informação que contraria a versão apresentada pelo investigado.
Para a família, não há dúvidas de que Adrielle foi vítima de mais um feminicídio.
“Quem conhecia minha irmã sabe que ela jamais enfrentaria ele. Ela o amava, chegou a se afastar dos amigos por causa dele. Na frente dos outros ele parecia uma boa pessoa, mas só ela sabia o que vivia dentro daquele relacionamento”, desabafou Marielle.
A dor da família aumentou ainda mais porque a mãe de Adrielle só descobriu a morte da filha pela televisão.
“Minha irmã já estava morta desde cedo, mas ninguém avisou minha mãe. Ela soube pela TV. Isso machuca muito.”
Douglas foi preso em flagrante e responderá por feminicídio. A faca utilizada no crime foi apreendida e imagens de câmeras de segurança devem ajudar a esclarecer todos os detalhes da investigação.
Mas, para a família, nenhuma condenação será capaz de devolver Adrielle.
Casos como este levantam uma discussão que precisa ir além das campanhas de conscientização. A legislação brasileira avançou ao tipificar o feminicídio como crime hediondo e aumentar as penas para quem mata mulheres por razões da condição do sexo feminino. Ainda assim, a sucessão de crimes evidencia que a resposta do Estado continua sendo desafiadora.
É legítimo que a sociedade cobre investigações rápidas, julgamentos céleres, cumprimento efetivo das penas e mecanismos mais eficientes de proteção às mulheres ameaçadas. Da mesma forma, fortalecer a rede de acolhimento, ampliar o acesso às denúncias e garantir o cumprimento rigoroso das medidas protetivas são ações indispensáveis para evitar que novas vidas sejam perdidas.
Enquanto isso não acontece, crianças continuam ficando sem mães.
Pais continuam enterrando filhas.
Famílias continuam destruídas.
E o nome de Adrielle passa a integrar uma lista que jamais deveria continuar crescendo. Ela não é apenas a 18ª vítima de feminicídio em Mato Grosso do Sul neste ano. Era uma jovem cheia de sonhos, uma mãe que queria construir um futuro melhor para a filha e que teve esse direito arrancado pela violência.