Caso serve de alerta para uma das fraudes mais antigas do país, que continua fazendo vítimas e causando prejuízos milionários
Uma servidora aposentada do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) foi resgatada pela polícia na tarde desta terça-feira (16), após ser vítima de um golpe que evoluiu para uma espécie de “sequestro relâmpago” em Campo Grande. O caso mobilizou equipes da segurança do Tribunal de Justiça, policiais militares, agentes do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e da Polícia Civil.
A ocorrência chama atenção para um golpe antigo, mas que continua sendo aplicado com sucesso por criminosos em todo o país: o chamado “golpe do bilhete premiado”. A fraude se baseia na manipulação emocional da vítima, utilizando histórias convincentes para despertar confiança e induzir a entrega de dinheiro.
Segundo as informações apuradas, a aposentada foi abordada pelos estelionatários em outro ponto da cidade. Os criminosos alegaram possuir um bilhete supostamente premiado com alto valor, mas afirmaram que não poderiam receber o prêmio por motivos religiosos. Em troca de ajuda para sacar a quantia, prometeram uma recompensa financeira à vítima.
Convencida pela narrativa, a mulher passou a acompanhar os suspeitos. De acordo com o chefe da segurança do TJMS, tenente-coronel Luna Chaparro, os golpistas criaram uma história detalhada para conquistar a confiança da aposentada.
“Eles montaram toda uma narrativa envolvendo um bilhete premiado e questões religiosas. Com isso, conseguiram convencê-la a passar por diversos locais, inclusive pela própria residência”, explicou.
Durante a ação, os criminosos levaram a vítima até sua casa e conseguiram que ela entregasse aproximadamente R$ 40 mil entre dinheiro em espécie e moeda estrangeira.
Mesmo após obterem a quantia, os suspeitos tentaram aumentar o prejuízo. Eles levaram a aposentada até uma agência da Caixa Econômica Federal localizada no prédio do Tribunal de Justiça, com a intenção de convencê-la a contratar um empréstimo bancário.
Apesar de o TJMS estar sem expediente em razão do falecimento do desembargador aposentado José Augusto de Souza, a agência bancária funcionava normalmente.
Foi nesse momento que a situação começou a mudar.
Ao perceber sinais claros de que a cliente poderia estar sendo vítima de um golpe, o gerente da conta acionou imediatamente a segurança do Tribunal.
Enquanto a mulher era atendida dentro da agência, os criminosos aguardavam do lado de fora, dentro de um veículo.
Quando perceberam a movimentação policial e a possibilidade de serem descobertos, os suspeitos ordenaram que a vítima retornasse rapidamente ao carro e iniciaram a fuga.
A perseguição começou imediatamente.
Segundo o sargento Vital, um dos policiais envolvidos na ação, os criminosos chegaram a avançar o veículo contra os agentes.
“Efetuei o primeiro disparo na roda do carro. Ele jogou o veículo em cima de mim. Outro policial também efetuou disparos. O pneu acabou furando, mas eles continuaram fugindo”, relatou.
Após percorrer parte do Parque dos Poderes, os suspeitos abandonaram o veículo e correram para uma área de mata, deixando a aposentada para trás.
A vítima foi encontrada sem ferimentos e resgatada pelas equipes de segurança.
Após uma intensa mobilização policial, com apoio de diversas equipes, os suspeitos foram localizados e presos.
Eles foram encaminhados para a Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros (Garras), responsável pela continuidade das investigações.
A Polícia Civil também apura a possível participação de outros integrantes no esquema criminoso.
O golpe do bilhete premiado é uma das fraudes mais conhecidas do país e costuma ter como alvo idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade emocional.
Os criminosos abordam a vítima alegando possuir um bilhete de loteria premiado ou algum crédito de alto valor, mas dizem não conseguir sacar o prêmio por algum motivo. Em seguida, oferecem parte da suposta fortuna em troca de ajuda.
Para tornar a história mais convincente, geralmente um segundo comparsa aparece confirmando a versão e reforçando a sensação de legitimidade.
A vítima acaba entregando dinheiro, realizando transferências bancárias ou até contraindo empréstimos acreditando que receberá uma recompensa muito maior.
As autoridades orientam que qualquer promessa de ganho financeiro fácil deve ser vista com desconfiança.
Em situações semelhantes, a recomendação é nunca entregar dinheiro, não realizar transferências, não fornecer dados bancários e procurar imediatamente familiares, instituições financeiras ou a polícia.
Neste caso, a atenção de um gerente bancário e a rápida atuação das forças de segurança evitaram que o prejuízo fosse ainda maior e impediram que a vítima continuasse sob controle dos criminosos.