Lideranças petistas enxergam enfraquecimento da direita tradicional em Mato Grosso do Sul

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A direção do PT em Mato Grosso do Sul começou a dar os primeiros sinais da estratégia que pretende adotar para as eleições de 2026: apostar na fragmentação da direita para tentar levar a disputa pelo Governo do Estado ao segundo turno e, pela primeira vez em muitos anos, voltar a disputar o comando político sul-mato-grossense com chances reais.

Durante agenda realizada nesta segunda-feira (18), na sede estadual do partido, em Campo Grande, lideranças petistas nacionais e locais deixaram claro que enxergam um cenário mais favorável para a esquerda no Estado, principalmente após a movimentação de nomes ligados ao bolsonarismo e à direita conservadora.

Participaram do encontro nomes importantes da legenda e aliados políticos, como o secretário-geral nacional do PT, Henrique Fontana, o deputado federal Vander Loubet, a deputada federal Camila Jara, a vereadora Luiza Ribeiro, o ex-deputado federal Fábio Trad, além da senadora Soraya Thronicke e outras lideranças estaduais.

Nos bastidores, o entendimento dentro do PT é de que o campo conservador, historicamente dominante em Mato Grosso do Sul, chega para a próxima eleição dividido entre diferentes grupos políticos. O principal exemplo citado pelos petistas é a saída do deputado estadual João Henrique Catan do PL para o Novo, movimento visto como capaz de dividir o eleitorado mais alinhado ao bolsonarismo raiz.

Pré-candidato ao Senado, Vander Loubet afirmou que a esquerda pode crescer justamente em meio à disputa interna da direita. Segundo ele, a avaliação do partido é de que candidaturas conservadoras concorrendo entre si podem abrir espaço para que o PT alcance um patamar competitivo suficiente para chegar ao segundo turno.

A leitura política feita pela sigla é baseada no desempenho eleitoral recente do Estado. Em 2022, o PT teve um resultado discreto na disputa pelo Governo, quando Giselle Marques terminou a eleição em quinto lugar, com menos de 10% dos votos válidos. Agora, porém, o partido acredita que o cenário mudou, principalmente pela reorganização das forças políticas locais e pela perda da hegemonia absoluta do PSDB no Estado.

Além da fragmentação da direita, outro ponto debatido durante o encontro foi a dificuldade histórica do PT em dialogar com setores conservadores de Mato Grosso do Sul, especialmente o eleitorado evangélico e o agronegócio — duas forças políticas e econômicas decisivas no Estado.

Henrique Fontana afirmou que o partido pretende enfrentar o que chamou de “preconceitos políticos” construídos ao longo dos últimos anos nas redes sociais, principalmente ligados à imagem do presidente Lula perante os evangélicos e produtores rurais.

Segundo o dirigente nacional, existe uma narrativa consolidada entre parte do eleitorado conservador de que governos petistas seriam contrários às igrejas ou ao agronegócio, algo que, na visão dele, não corresponde aos números econômicos registrados durante os governos Lula e Dilma.

A fala revela uma mudança importante na postura do PT em Mato Grosso do Sul. Tradicionalmente mais ligado aos movimentos sindicais, setores urbanos e funcionalismo público, o partido agora tenta ampliar diálogo com segmentos que historicamente votaram na direita estadual.

O encontro também serviu como demonstração de unidade entre diferentes alas da esquerda sul-mato-grossense, em um momento em que os partidos começam a desenhar alianças e medir forças para a sucessão estadual.

Enquanto isso, do outro lado do tabuleiro político, a direita entra em um período de reorganização. O governador Eduardo Riedel tenta consolidar sua liderança após herdar o capital político tucano construído por Reinaldo Azambuja, mas observa o crescimento de grupos mais ideológicos ligados ao bolsonarismo, especialmente após o fortalecimento de nomes como João Henrique Catan e setores do PL mais alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Nos bastidores da política estadual, a avaliação é de que a eleição de 2026 pode ser uma das mais abertas dos últimos anos em Mato Grosso do Sul, principalmente se houver pulverização de candidaturas no campo conservador — cenário que o PT tenta transformar em oportunidade para voltar ao centro da disputa estadual.

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