Lideranças indígenas denunciam feminicídio após morte de mulher em incêndio no Tekoha Paraguassu

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Uma mulher indígena da etnia Kaiowá morreu carbonizada na madrugada deste domingo, na comunidade Tekoha Paraguassu, em Paranhos, após sua residência ser consumida por um incêndio. O caso, registrado inicialmente como morte a esclarecer, ganha contornos de crime após denúncias de lideranças locais que apontam para um possível feminicídio no Dia Internacional da Mulher.

De acordo com o boletim de ocorrência, a vítima teria consumido bebidas alcoólicas com conhecidos em uma casa vizinha antes de retornar ao seu imóvel, que foi tomado pelas chamas pouco tempo depois. Há divergências sobre a idade da vítima: o registro policial indica 44 anos, enquanto lideranças indígenas afirmam que ela tinha 35 anos. O corpo foi encontrado com 100% de carbonização.

A Assembleia das Mulheres Guarani e Kaiowá (Kuñangue Aty Guasu) publicou um manifesto contundente classificando o incêndio como ato criminoso e apontando o marido da vítima como principal suspeito, afirmando que ele foi o último a ser visto com ela. A organização denunciou a vulnerabilidade e o silenciamento das mulheres indígenas, cobrando uma investigação rigorosa do Estado diante da gravidade do episódio.

A Polícia Civil de Paranhos informou que as testemunhas que estavam com a vítima antes do incidente serão ouvidas a partir desta segunda-feira para determinar a origem do fogo. O caso segue sob investigação para apurar se o incêndio foi acidental ou provocado intencionalmente, em meio ao clamor por justiça das comunidades tradicionais da região.

Mato Grosso do Sul possui a segunda maior população indígena do Brasil, mas os números da violência de gênero nesses territórios revelam um abismo de proteção estatal. O caso registrado hoje em Paranhos não é isolado; ele faz parte de uma estatística silenciosa e brutal.

Estudos do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e da Kuñangue Aty Guasu apontam que a violência doméstica em comunidades indígenas é severamente subnotificada devido a barreiras linguísticas, falta de delegacias especializadas próximas às aldeias e o medo de represálias.

Em MS, o índice de assassinatos de mulheres indígenas é proporcionalmente superior ao de mulheres não indígenas. A vulnerabilidade é agravada pela disputa de terras e pela entrada de álcool e drogas nas comunidades, fatores que potencializam ciclos de violência.

Muitas comunidades, como a Tekoha Paraguassu, ficam em regiões de fronteira ou de difícil acesso, o que retarda a chegada da perícia e da polícia, dificultando a preservação de provas em casos de incêndio ou agressão.

A Assembleia das Mulheres Guarani e Kaiowá tem sido a principal voz na denúncia desses crimes. O grupo destaca que a violência contra a mulher indígena é uma “violência estrutural”, onde o corpo da mulher torna-se o território de ataques que muitas vezes ficam sem solução jurídica.

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