O cenário político sul-mato-grossense foi tomado nas últimas horas por uma polêmica que, sob uma análise mais criteriosa, revela muito mais sobre o preconceito e o dois pesos e duas medidas da nossa sociedade do que sobre qualquer irregularidade real. A divulgação de imagens da senadora Soraya Thronicke em uma loja de luxo em Orlando, durante suas férias, acendeu um debate que beira o absurdo e o anacrônico.
Questionar o direito de uma senadora da República, advogada de carreira e profissional bem-sucedida de frequentar estabelecimentos de grife ou desfrutar de seus momentos de descanso no exterior é, no mínimo, uma tentativa rasa de desqualificação. Surge então o questionamento inevitável: se fosse um político homem, com o mesmo currículo e êxito financeiro, o julgamento seria tão implacável? O que vemos é um pré-julgamento que parece punir a independência feminina. Enquanto a sociedade frequentemente passa o pano para posturas masculinas verdadeiramente questionáveis, uma mulher independente fazendo compras vira alvo de escrutínio moralista.
Sobre a companhia da senadora nas imagens, as críticas focam na presença de Silvio Assis. É preciso restabelecer a verdade e a sobriedade dos fatos: ser alvo de investigações ou de situações rotuladas como suspeitas não é sentença de culpa em um Estado de Direito. Nada foi provado contra o referido empresário. Além disso, é importante lembrar que a atividade de relações institucionais e o diálogo entre o setor privado e o público, o chamado lobby, não é crime, sendo uma prática comum e regulamentada em diversas democracias desenvolvidas pelo mundo.
A tentativa de vincular a imagem da senadora a algo ilícito apenas por ela estar em um espaço público, exercendo seu direito de cidadã e consumidora ao lado de um conhecido, carece de substância jurídica e ética. O que se vê em Mato Grosso do Sul, neste episódio, é uma narrativa inflada pelo sensacionalismo que ignora a trajetória de Soraya e foca em elementos superficiais para tentar macular sua atuação parlamentar. É hora de elevar o nível do debate e separar o direito à privacidade e ao lazer da legítima fiscalização pública.
Para compreender o nível de injustiça nas críticas direcionadas à senadora Soraya Thronicke, basta observar como o tribunal das redes sociais se comporta diante de figuras masculinas. Não faltam exemplos de políticos homens que, frequentemente, são vistos em jantares caros, viagens internacionais custeadas pelo erário ou em iates luxuosos sem que isso gere metade da indignação agora demonstrada. Em muitos desses casos, a sociedade parece adotar uma postura de naturalização, tratando o luxo como um acessório inerente ao poder masculino, enquanto para uma mulher, o mesmo estilo de vida é questionado como se fosse um desvio de conduta.
A diferença de tratamento é gritante. Enquanto parlamentares homens já foram flagrados em situações de proximidade muito mais estreita com figuras sob investigação e receberam o benefício da dúvida ou o silêncio complacente, Soraya é julgada por estar em uma loja de shopping. O julgamento se torna seletivo: para eles, o privilégio do sucesso e do lazer é visto como mérito; para ela, é transformado em munição para ataques pessoais que buscam invalidar sua inteligência e sua competência política.
Essa disparidade reforça que o ataque atual não é sobre ética, mas sobre o incômodo que uma mulher poderosa e autossuficiente causa. Ao passar o pano para homens que mantêm posturas verdadeiramente polêmicas e ao mesmo tempo condenar uma senadora por suas escolhas de consumo privado, parte da opinião pública revela um viés machista que tenta ditar o que uma mulher pode ou não fazer com seu próprio patrimônio e tempo livre. É um padrão duplo que precisa ser rompido para que o debate político em Mato Grosso do Sul ganhe a maturidade que o eleitor merece.