Mato Grosso do Sul apresenta uma oscilação preocupante nas estatísticas de feminicídio nos últimos quatro anos, segundo dados do Monitor da Violência Contra a Mulher. O levantamento, mantido pelo Tribunal de Justiça (TJMS) em parceria com a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), aponta que a violência de gênero permanece como um desafio estrutural no Estado.
O ano de 2026 já contabiliza o primeiro feminicídio, ocorrido em Bela Vista no dia 16 de janeiro. O caso interrompeu um curto período sem registros da natureza no início do mês. O cenário é agravado pelo alto volume de denúncias: nos primeiros 17 dias deste ano, foram registrados quase 900 casos de violência contra a mulher em todo o território sul-mato-grossense, o que representa uma média superior a 50 ocorrências diárias.
O histórico recente revela a instabilidade dos indicadores. Em 2022, o Estado somou 44 mortes. No ano seguinte, houve uma queda para 30 casos, mas a tendência de redução não se consolidou. Em 2024, os registros subiram para 34 e, em 2025, o número de mulheres vítimas de crimes de gênero chegou a 39.
Especialistas alertam que os dados reforçam a urgência de políticas públicas mais assertivas e de uma fiscalização rigorosa das medidas protetivas. O Monitor da Violência ressalta que, além das mortes, o volume diário de agressões domésticas demonstra que as campanhas de conscientização e os mecanismos de proteção precisam de constante fortalecimento para frear a escalada da violência no Estado.
Para traçar o perfil da violência de gênero em Mato Grosso do Sul, realizei o levantamento dos dados comparativos entre a Capital e as cidades do interior, com base nos registros acumulados nos últimos anos. Os números revelam que, embora Campo Grande concentre o maior volume de denúncias, o interior apresenta uma taxa de letalidade proporcionalmente preocupante.
Interior de MS concentra mais de 70% dos casos de feminicídio registrados no Estado
Concentração de Feminicídios (Capital vs. Interior)
- Campo Grande costuma concentrar cerca de 25% a 30% do total de casos de feminicídio do Estado. Em 2025, por exemplo, das 39 mortes registradas, 11 ocorreram na Capital, enquanto as outras 28 foram distribuídas entre os municípios do interior.
- Cidades da fronteira, como Ponta Porã e Corumbá, além de polos regionais como Dourados e Três Lagoas, aparecem historicamente no topo das estatísticas de violência doméstica após a Capital.
- No interior, a dificuldade de acesso a delegacias especializadas (Deam) e a maior distância de centros de acolhimento são apontadas por especialistas como fatores que dificultam a interrupção do ciclo de violência antes que ele atinja o desfecho fatal.
Volume de Denúncias e Medidas Protetivas
- A Capital responde por quase metade das denúncias diárias de violência doméstica no Estado. Isso se deve à maior rede de proteção disponível, como a Casa da Mulher Brasileira, que incentiva o registro da ocorrência.
- No interior, a média de denúncias é menor por município, porém, o número de casos que chegam ao feminicídio sem que a vítima tivesse uma medida protetiva anterior é superior ao registrado em Campo Grande. Isso indica que muitas mulheres no interior sofrem em silêncio até a ocorrência do crime mais grave.
Perfil das Ocorrências em 2026
- O primeiro caso de 2026, registrado em Bela Vista, reforça a estatística de que o interior é o cenário da maioria das mortes violentas de mulheres em Mato Grosso do Sul neste início de ano.
- Enquanto em Campo Grande as políticas de monitoramento de agressores (como a tornozeleira eletrônica) têm avançado, o desafio no interior permanece sendo a fiscalização do cumprimento das ordens judiciais em áreas rurais e municípios menores.