A Operação Carbono Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (28) em uma mega-ação coordenada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), mira um dos maiores esquemas de fraude fiscal e lavagem de dinheiro da história do país.
Um dos principais alvos é a Copape, formuladora de combustíveis com sede em Campo Grande (MS), que deve R$ 563,5 milhões em tributos federais, segundo a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). A empresa já havia sido denunciada pelo Correio do Estado, em dezembro de 2024, por atuar de forma agressiva contra gigantes do setor, como Vibra (Petrobras) e Ultrapar (Ipiranga).
Além da Copape, os mandados de busca e apreensão atingem cidades do interior sul-mato-grossense, como Iguatemi (sete alvos) e Dourados (um alvo). A operação é realizada em parceria entre Polícia Federal, Receita Federal, PGFN e Gaeco de São Paulo.
Segundo as investigações, a Copape integra um sofisticado esquema que envolve fintechs da Avenida Faria Lima, em São Paulo, como o BK Bank, responsável por movimentações suspeitas de R$ 17,7 bilhões. O principal cliente do banco era a Aster, distribuidora de combustíveis que teve atuação suspensa pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) em 2024.
De acordo com a Receita Federal, somente a Copape teria sonegado quase metade dos tributos federais em MS. No total, estima-se que a organização criminosa tenha deixado de pagar R$ 1,4 bilhão em tributos federais e R$ 7,6 bilhões em tributos estaduais.
Ligação com o crime organizado
A apuração aponta que o grupo, liderado por Mohamed Hussein Mourad e Roberto Augusto Leme da Silva (o Beto Louco), usava empresas como a Copape e a Aster para lavar dinheiro e abastecer atividades do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo o inquérito, o PCC chegava a ameaçar donos de postos independentes de combustíveis para que vendessem seus negócios, prática que também abria espaço para a venda de combustível adulterado.
Uma das fraudes detectadas foi o uso ilegal de metanol na produção de gasolina adulterada, causando prejuízos diretos ao consumidor.
A Receita Federal detalhou que os recursos ilícitos eram disfarçados por meio de fintechs e fundos de investimento, antes de serem aplicados em imóveis de luxo em Trancoso (BA), fazendas no interior de São Paulo e frotas de caminhões.
Impacto em MS
No Estado, chama atenção também a presença da Vetor Comércio de Combustíveis Ltda., sediada em Iguatemi e maior devedora de tributos federais em Mato Grosso do Sul, com R$ 1,72 bilhão inscritos na dívida ativa da União. Embora ainda não confirmada como alvo, a empresa segue investigada pela Receita Federal e já dificultou ações da Justiça para receber intimações.
A Receita classificou a Carbono Oculto como a maior operação já feita contra o crime organizado no setor de combustíveis, com mais de 350 alvos em todo o país.
“O uso de centenas de empresas operacionais permitia dissimular recursos ilícitos. Ao mesmo tempo que lavava dinheiro, a organização lucrava com sonegação e adulteração de combustíveis, em prejuízo do consumidor e da sociedade”, destacou o órgão em nota.