A recente polêmica envolvendo o cantor sertanejo Zezé Di Camargo, que criticou publicamente o SBT por convidar o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um evento, gerou uma lamentável onda de apoio entre políticos de direita de Mato Grosso do Sul. O que deveria ser um simples debate sobre posicionamento político rapidamente descambou para um endosso perigoso à desinformação e ao machismo.
O cantor, em seu direito constitucional de se manifestar politicamente, escolheu fazê-lo com uma crítica superficial e carregada de desinformação. O pior, contudo, foi sua infeliz e ofensiva referência às mulheres como “prostitutas”, mesmo que em tom pejorativo, ao tentar desqualificar o evento.
A reação da classe política sul-mato-grossense a essa manifestação é profundamente preocupante. Deputados como Rodolfo Nogueira (PL) e João Catan (PL) apressaram-se em exaltar o cantor com frases como “Gigante, parabéns” e “Orgulho do Zezé do Agro”. Mais decepcionante ainda foi a atitude da deputada estadual Mara Caseiro (PSDB), que não apenas endossou, mas republicou o vídeo, amplificando a crítica vazia do artista.
A Concessão e a Ignorância do Poder
É fundamental que qualquer pessoa que se proponha a comentar a relação entre governo e imprensa tenha conhecimento básico de como a radiodifusão funciona no Brasil. Televisão e rádio operam sob o regime de concessão pública. Isso significa que a licença para operar é concedida e renovada pelo Governo Federal. Não é por acaso que, historicamente, o saudoso Silvio Santos se referia ao Presidente da República como “patrão”: trata-se de uma prerrogativa legal inerente ao sistema de concessão.
O evento em questão era a inauguração do SBT News e contava com a presença de autoridades dos três Poderes — Executivo, Legislativo e Judiciário. Ignorar essa dinâmica institucional para abraçar uma crítica simplista e desinformada revela uma perigosa falta de preparo.
O Machismo Aplaudiu
O que é mais grave, contudo, é a normalização do discurso de ódio e da misoginia. Ver representantes eleitos aplaudindo e compartilhando uma fala que recorre à desqualificação machista para fazer um ponto político é um desserviço à representação. De deputados a uma deputada estadual, esperava-se um mínimo de sensatez, conhecimento institucional e, acima de tudo, a rejeição imediata a qualquer insinuação ofensiva contra as mulheres.
Lamentamos profundamente que a busca por capital político imediato tenha levado nossos representantes a endossar publicamente um vídeo que é, no mínimo, desnecessário, machista e desprovido de conhecimento sobre a máquina pública que eles próprios ajudam a operar. A política deveria ser o palco da inteligência e do debate elevado, e não do eco irrefletido de figuras públicas desinformadas.