Paulo da Cruz Duarte mantinha relação profissional com a ex-presidente da Santa Casa e teve empresas contratadas pela operadora do hospital, segundo a investigação
A investigação sobre supostas fraudes e desvios na Santa Casa de Campo Grande identificou transferências superiores a R$ 200 mil feitas pelo empresário e advogado Paulo da Cruz Duarte para contas pessoais de Alir Terra Lima, então diretora-presidente da instituição.
De acordo com informações atribuídas ao relatório do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc), os repasses revelam um fluxo financeiro pessoal entre Alir e o empresário cujas empresas passaram a ser contratadas pela Operadora Santa Casa Saúde durante a gestão dela.
A origem, a natureza e as justificativas das transferências são investigadas no âmbito da Operação Antidotum. Os investigadores também apuram se os valores possuem relação com os contratos firmados entre a operadora e as empresas ligadas a Paulo.
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul ainda não divulgou publicamente, de maneira individualizada, as datas, os valores de cada transferência ou as justificativas apresentadas para os pagamentos.
Relação profissional começou antes da gestão
Segundo os elementos reunidos na investigação, a relação entre Alir e Paulo antecedia a chegada dela à presidência da Santa Casa, ocorrida em fevereiro de 2023.
Dados telemáticos e documentos encontrados durante as apurações indicariam que os dois mantiveram um escritório de advocacia, atuaram nas mesmas causas e compartilharam endereço comercial.
Entre os documentos mencionados estão recibos emitidos conjuntamente, peças processuais assinadas pelos dois e papelaria profissional contendo os nomes de Alir e Paulo. Um recibo de janeiro de 2019, segundo o relatório, registra o recebimento conjunto de honorários por serviços de consultoria.
O conjunto desses elementos levou os investigadores a apontarem que a ligação entre os dois não seria apenas institucional ou decorrente dos contratos posteriores com a Santa Casa.
Empresas receberam R$ 9,6 milhões
Após Alir assumir a presidência da instituição, empresas controladas ou representadas por Paulo passaram a prestar diferentes serviços para a Operadora Santa Casa Saúde, empresa vinculada à Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande.
As contratações abrangiam atividades como assessoria jurídica, atendimento telefônico, cobrança, emissão de boletos, comercialização de planos, administração de benefícios, entrevistas de saúde, telemedicina, publicidade e gestão.
Conforme decisão judicial citada por veículos de imprensa, somente em 2025 a operadora teria pago R$ 9.617.738,49 às empresas relacionadas ao advogado.
No mesmo período, a Santa Casa Saúde registrou resultado negativo de aproximadamente R$ 3,5 milhões. Para o Ministério Público, o modelo das contratações pode indicar conflito de interesses e direcionamento em benefício de pessoas ligadas à direção da entidade.
A existência dos pagamentos às empresas não comprova, isoladamente, a prática de crime. A investigação busca esclarecer se os serviços foram efetivamente prestados, se os preços eram compatíveis com o mercado e como as contratações foram autorizadas.
Operação apura prejuízo milionário
A Operação Antidotum foi deflagrada na sexta-feira (11) pelo Gecoc e pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). Foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva e 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia.
Uma das frentes da apuração envolve um contrato de R$ 1,8 milhão por ano para a digitalização de prontuários médicos. Com vigência prevista de três anos, o acordo poderia alcançar R$ 5,4 milhões.
Segundo o MPMS, pagamentos elevados teriam sido realizados sem a correspondente prestação dos serviços. O prejuízo estimado nessa contratação chega a R$ 1,4 milhão.
Outra frente analisa os contratos da Operadora Santa Casa Saúde com empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico. A investigação estima prejuízo mínimo de R$ 3,5 milhões nesse conjunto de negócios.
Somadas, as duas frentes já apontam perdas superiores a R$ 4,9 milhões. O valor permanece em apuração e pode aumentar com o avanço da análise dos documentos e equipamentos apreendidos.
O Ministério Público sustenta ainda que contratos, pagamentos e prestações de contas eram omitidos do Conselho Fiscal da Santa Casa e da Controladoria-Geral do Estado.
Defesa contesta acusações
A defesa de Alir Terra Lima afirma que ela está indignada com as acusações e sustenta que, apesar de ocupar a presidência, não realizava pagamentos nem atuava como ordenadora de despesas da Santa Casa.
O advogado Murilo Marques informou que pretende esclarecer os fatos e demonstrar à Justiça que não existem motivos para a manutenção da prisão preventiva.
Paulo da Cruz Duarte foi afastado de suas funções e proibido de entrar nas dependências do hospital e da operadora. Até a última atualização das reportagens consultadas, sua defesa não havia apresentado manifestação específica sobre as transferências superiores a R$ 200 mil.
Em nota divulgada após a operação, a Santa Casa informou que está colaborando com as autoridades e permanece à disposição para prestar os esclarecimentos solicitados.
As suspeitas ainda estão sob investigação. Alir, Paulo e os demais citados têm direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência.