A violência doméstica fez mais uma vítima fatal na capital sul-mato-grossense. A dona de casa Joseane Oliveira Nunes, de 33 anos, foi brutalmente assassinada dentro de sua própria residência na noite desta quarta-feira (19). O crime ocorreu na divisa entre os bairros Tiradentes e Cristo Redentor, mobilizando equipes policiais e chocando os moradores da região.
A Polícia Civil identificou o companheiro da vítima como Lourival da Cruz Neto, conhecido popularmente na região pelo apelido de Bola. Ele mantinha um relacionamento de aproximadamente quatro anos com Joseane, período já marcado por episódios anteriores de abusos e agressões físicas. A vítima havia registrado um boletim de ocorrência por violência doméstica em junho, chegando a conseguir uma medida protetiva de urgência. Contudo, a proteção foi revogada posteriormente a pedido da própria dona de casa, que optou por reatar o convívio com o agressor.
De acordo com as checagens nos sistemas policiais do Estado, Lourival já havia sido denunciado formalmente pelo Ministério Público Estadual por uma tentativa de homicídio qualificado cometida em julho de 2025. Na ocasião, o agressor invadiu uma residência e desferiu diversos golpes contra um homem. O crime do ano anterior foi motivado por um desentendimento banal decorrente de apostas em um jogo de sinuca, demonstrando o comportamento intempestivo e violento do acusado.
As primeiras informações divulgadas pela Polícia Militar apontavam que a vítima teria sido atacada com golpes de foice e martelo. No entanto, após os trabalhos periciais na cena do crime, a Polícia Civil confirmou que as lesões fatais — concentradas principalmente na região da cabeça, nuca e pescoço — foram desferidas exclusivamente com o uso de uma foice.
De acordo com o boletim de ocorrência, vizinhos relataram ter ouvido gritos desesperados de socorro vindos do interior do imóvel. Diante do barulho, algumas testemunhas decidiram arrombar o portão para intervir, momento em que flagraram o suspeito fugindo do local em uma bicicleta de cor azul.
O Corpo de Bombeiros e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foram acionados imediatamente. Contudo, devido à gravidade extrema dos ferimentos na região craniana, Joseane não resistiu e morreu antes da chegada do socorro médico. Ela deixa três filhos, com idades entre 11 e 17 anos.
Na ocasião, a Justiça chegou a conceder uma medida protetiva de urgência para garantir a segurança da dona de casa. No entanto, a proteção foi revogada posteriormente a pedido da própria vítima, que decidiu reatar o convívio com o agressor — um desfecho comum e trágico que evidencia a complexidade do ciclo da violência doméstica.
Durante a fuga em uma bicicleta azul na noite desta quarta-feira, Lourival cometeu um erro que se tornou a principal peça de rastreamento para a polícia. Na pressa para deixar o local logo após desferir os golpes de foice contra a companheira, o aparelho celular do agressor caiu em frente à calçada da residência.
O telefone foi imediatamente recolhido e apreendido pela equipe de perícia técnica que atendeu a ocorrência. O dispositivo já foi encaminhado para a análise do setor de inteligência da Polícia Civil, que busca extrair dados de geolocalização, mensagens recentes e possíveis contatos que possam indicar onde o suspeito está buscando abrigo ou recebendo apoio logístico para se esconder.
Com a morte de Joseane, Mato Grosso do Sul atinge a alarmante marca de 22 feminicídios registrados somente no ano de 2026, sendo este o terceiro caso contabilizado em Campo Grande. O crime reforça a urgência do debate sobre a eficácia das redes de apoio e o monitoramento de agressores mesmo após a reconciliação dos casais.
O interior concentra a maior fatia das 22 ocorrências registradas em 2026, com crimes cometidos em diversas regiões do estado.
Em Dourados, no mês de agosto, Rose Batista Cabreira, de 41 anos, foi morta após cair em uma emboscada em uma aldeia da região. A autora do crime confessou o assassinato alegando vingança, mas a investigação policial revelou que o atual companheiro da vítima e ex-marido da autora participou ativamente do plano, levando a mulher de moto até o local do crime. O caso foi enquadrado como feminicídio devido à coautoria do parceiro.
No município de Anastácio, em março, Leise Aparecida Cruz, de 41 anos, morreu após ser esganada e empurrada contra a parede pelo marido durante uma discussão. Para tentar se livrar da culpa, o criminoso acionou as autoridades afirmando que a esposa teria passado mal e morrido devido ao uso de canetas emagrecedoras. Após contradições apontadas pela Polícia Civil, ele confessou o crime e acabou preso.
No início do ano, em Corumbá, Rosana Candia Ohara, de 62 anos, foi morta a pauladas na frente de testemunhas pelo ex-companheiro. Um vizinho chegou a gritar que chamaria a Polícia Militar para conter o ataque, mas o autor sorriu, continuou a desferir os golpes e tentou fugir a pé, sendo capturado logo em seguida. A primeira vítima do ano no estado foi Josefa dos Santos, em Bela Vista, baleada pelo companheiro que cometeu suicídio logo após o crime.
Os dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) mostram que, além das mortes consumadas, as tentativas de feminicídio dispararam em Mato Grosso do Sul, registrando uma alta de quase 90% no primeiro semestre do ano em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Os relatórios das delegacias de polícia apontam que o histórico de reatamento de vínculos e o descumprimento de medidas protetivas de urgência — como ocorreu com Joseane no bairro Tiradentes, que havia pedido a revogação da própria proteção para voltar a morar com o agressor — continuam sendo os principais fatores de risco para a letalidade das mulheres no estado.