MS abriga fábricas clandestinas de cigarros e esquema movimenta bilhões

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Mato Grosso do Sul é conhecido como principal rota de entrada de cigarros paraguaios no Brasil, mas não fica só nisso, o Estado também abriga fábricas clandestinas responsáveis pela produção ilegal do produto. De acordo com matéria publicada no jornal Correio do Estado, levantamento da Associação Brasileira da Indústria do Fumo (Abifumo) aponta que, desde 2007, ao menos 75 fábricas ilegais e mais de 100 depósitos clandestinos foram fechados em operações de fiscalização em todo o País.

Os dados fazem parte do Mapa do Contrabando, estudo divulgado recentemente pelo Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf). O relatório também revela a apreensão de 57 máquinas utilizadas na produção clandestina de cigarros entre 2007 e 2025.

Segundo o levantamento, além de Mato Grosso do Sul, as fábricas ilegais foram identificadas na Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins.

Presidente do Idesf, Luciano Barros afirmou que diversas operações já flagraram fábricas clandestinas produzindo cigarros paraguaios dentro do território brasileiro.

“Tivemos várias operações que flagraram fábricas clandestinas de marcas paraguaias funcionando no território brasileiro. Eles usam as marcas paraguaias, o fumo de lá, maquinário e até mão de obra paraguaia, que muitas vezes trabalha em regime análogo à escravidão”, afirmou.

Segundo Barros, além da falsificação das marcas comercializadas ilegalmente no Paraguai, há indícios da participação de facções criminosas nas operações clandestinas.

O presidente do Fórum Nacional contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), Edson Vismona, explicou que o crescimento do consumo de cigarros ilegais estimulou a instalação de fábricas clandestinas no Brasil.

De acordo com ele, o esquema envolve a importação de maquinário e fumo do Paraguai para produção em território nacional, reduzindo custos logísticos, especialmente para estados mais distantes da fronteira.

Ainda conforme Vismona, o mercado ilegal de cigarros paraguaios movimentou R$ 10,3 bilhões somente no ano passado. Desse total, cerca de 10% teriam origem em fábricas clandestinas e em empresas classificadas como “devedores contumazes”.

“No ano passado, esse mercado de cigarro paraguaio movimentou R$ 10,3 bilhões, e 10% desse valor vêm das fábricas clandestinas e das fábricas de devedores contumazes”, afirmou ao Correio do Estado.

Segundo ele, os chamados devedores contumazes são empresas formalmente registradas no País, mas que deixam de recolher impostos de forma recorrente, o que acaba favorecendo a competitividade de marcas ilegais.

Para o presidente do FNCP, o combate ao contrabando deve ocorrer tanto na repressão à oferta quanto na redução da demanda pelos produtos ilegais.

“A oferta pode ser reduzida com articulação das forças policiais para atuar na repressão ao contrabando de cigarros. Esses grupos atuam como máfias, se infiltram no País, instalam depósitos e criam redes de distribuição”, avaliou.

Ele também defendeu equilíbrio tributário como forma de reduzir a atratividade do produto ilegal no mercado.

“Aumentar muito os impostos impacta no preço e isso leva ao aumento da procura pelo cigarro contrabandeado, ampliando o lucro ilegal”, completou.

O relatório também ouviu o diretor do Departamento de Operações de Fronteira (DOF) de Mato Grosso do Sul, tenente-coronel Wilmar Fernandes, que descreveu a estrutura utilizada pelo crime organizado para o transporte e distribuição dos cigarros.

Segundo ele, o contrabando funciona por meio de uma rede altamente organizada, que envolve caminhões roubados, olheiros, batedores, aliciamento de agentes públicos e sistemas de comunicação para monitorar ações policiais.

“É muito bem estruturado. Tem o batedor, o olheiro, o chefe da vila, pessoas responsáveis por alimentação e comunicação. Toda essa estrutura existe para garantir que a carga saia em segurança e não seja apreendida”, afirmou.

Fernandes também citou a atuação de facções criminosas como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital no esquema de distribuição dos cigarros ilegais, especialmente para os mercados de São Paulo e Rio de Janeiro.

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