Declaração sobre “auxiliar o homem” é criticada por ignorar a realidade de milhões de brasileiras que sustentam suas famílias.

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A declaração do Frei Gilson sobre o papel da mulher no casamento — ao afirmar que ela “nasceu para auxiliar o homem” — caiu como combustível em um debate que já está longe de ser simples. Em um país onde milhões de mulheres sustentam suas casas sozinhas, a fala soa, no mínimo, desconectada da realidade. Para muitos, vai além: reforça uma visão ultrapassada e, sim, pode ser interpretada como misógina.

O religioso baseia sua fala no relato da criação em Livro de Gênesis, quando Eva é apresentada como “auxiliadora” de Adão. O problema não está no texto, mas na forma como ele é usado. A palavra original, no hebraico, está longe de significar submissão. “Ezer” aparece na Bíblia para descrever o próprio Deus como socorro do homem — uma força que sustenta, não alguém que se submete.

Ou seja: a interpretação que coloca a mulher em posição inferior não é consenso nem dentro da própria teologia. Ainda assim, quando o frei reduz o papel feminino a “auxiliar o homem”, a mensagem que chega para grande parte das mulheres é outra — a de que seu lugar é secundário.

E é aí que o discurso entra em choque com a vida real.

Hoje, são milhões de brasileiras que são arrimo de família. Mulheres abandonadas, viúvas ou simplesmente responsáveis pelo sustento da casa. Para elas, não existe “auxiliar marido” — porque o marido não está lá. Pergunta que fica: quando o frei fala, ele está falando para quem?

A crítica também toca em outro ponto sensível: a responsabilidade religiosa. A própria Bíblia, em Epístola de Tiago (1:27), é direta ao dizer que a verdadeira fé está em cuidar de órfãos e viúvas em suas aflições. Diante disso, surge um questionamento inevitável: qual tem sido, na prática, o cuidado com essas mulheres que vivem exatamente essa realidade?

Mais do que uma discussão teológica, o caso escancara um problema de discurso. Em pleno século XXI, insistir em uma leitura que coloca a mulher como coadjuvante pode não apenas afastar fiéis, mas também reforçar estruturas que historicamente já colocaram mulheres em posição de desigualdade.

E quando esse tipo de fala se repete como padrão, o rótulo de misoginia deixa de ser exagero para virar interpretação legítima de quem se sente atingido. Da mesma forma, ao usar a Bíblia para sustentar uma visão considerada distorcida por muitos estudiosos, o frei também passa a ser questionado em sua autoridade religiosa — inclusive com críticas que o classificam como alguém que deturpa a própria mensagem que diz defender.

No fim das contas, o debate não é só sobre religião. É sobre responsabilidade. Porque palavra dita de púlpito não fica no púlpito — ela ecoa, molda pensamento e impacta vidas reais.

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