O drama vivido por uma mulher de 44 anos em Campo Grande expõe uma face cruel e dupla da realidade local: a brutalidade da violência contra a mulher e o colapso vergonhoso do sistema de saúde pública. Vítima de uma tentativa de feminicídio na última semana, ela sobreviveu a um golpe de machado desferido pelo ex-marido, mas agora enfrenta uma nova e torturante batalha contra o descaso estatal na UPA Coronel Antonino.
Internada desde o dia 24 de dezembro, a paciente aguarda uma vaga na Santa Casa com um ferimento aberto na cabeça que, diante da demora e da precariedade, tornou-se alvo de uma infestação de larvas. O relato da filha, de 26 anos, é de um desespero absoluto. Segundo ela, mesmo com o caso classificado como prioridade máxima, a transferência não ocorre, enquanto a mãe sofre com dores insuportáveis e a sensação terrível dos parasitas avançando sob a pele.
A situação atinge níveis de desumanidade inaceitáveis. A família denuncia que, apesar dos curativos realizados na unidade de pronto atendimento, o quadro exige uma intervenção cirúrgica imediata para limpar a área e conter a infecção, algo que a UPA não tem suporte para realizar. A omissão na agilidade da transferência coloca em xeque a eficiência da regulação de vagas na capital, especialmente em um caso onde a vida e a dignidade humana estão sendo devoradas pela burocracia e pela lentidão.
Enquanto a Secretaria Municipal de Saúde não apresenta uma solução concreta, o peso do descaso recai sobre os familiares. A filha relata o sacrifício de deixar o trabalho e o cuidado com uma criança de dois anos para se revezar no hospital em uma vigília de dor e cansaço. O caso deixa de ser apenas uma estatística de segurança pública para se tornar um símbolo da falência de um sistema que permite que uma sobrevivente de violência doméstica seja submetida a tamanha degradação dentro de uma unidade de saúde.