Auto multa em Campo Grande: prefeitura Intima a si mesma por dívidas e o humor peculiar da gestão Adriane Lopes

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Em um espetáculo digno de uma comédia burocrática, o Diário Oficial de Campo Grande desta terça-feira (24) nos brindou com uma cena inusitada: a Secretaria Municipal de Finanças (Sefin) intimou o próprio Município de Campo Grande por dívidas tributárias. Sim, você leu certo. O Fisco municipal, em um ato de auto-cobrança, justificou a medida pública pela “insucesso” em intimar a si mesmo de forma pessoal ou via Correios. Parece que o sistema de comunicação interna da prefeitura está mais complexo do que se imaginava, exigindo um edital para falar com o vizinho de gabinete.

O “Edital de Intimação 073/2025” elenca o próprio Município de Campo Grande como agente publicador da relação, por meio da “Gerência de Fiscalização de Tributos”. Com essa genialidade administrativa, a prefeitura se obriga a recolher, no prazo de 15 dias, os créditos tributários referentes ao Imposto sobre Serviços (ISS) e taxas de construção civil. Caso o Município discorde (de si mesmo, claro), a saída é interpor recurso à Coordenadoria de Julgamento e Consultas do órgão. Uma verdadeira obra de arte da autorreferência.

O detalhe pitoresco é que a lista, com 103 nomes, expõe contribuintes que devem até menos de R$ 10 – uma estratégia, segundo apurado, para “socorrer” a gestão da prefeita Adriane Lopes (Progressistas), que, nas palavras do presidente da Câmara, vereador Papy (PSDB), enfrenta uma “gravíssima crise financeira”. Ora, se a prefeitura está cobrando até centavos de cidadãos, faz todo o sentido que ela comece a cobrar os milhões que ela mesma se deve. A caridade começa em casa, não é mesmo?

Papy, aliás, tem sugerido que a prefeita faça um pacto com o Tesouro Nacional para aumentar a capacidade de endividamento da Capital – como se a solução para dívida fosse mais dívida. Outra sugestão seria uma “nova reforma administrativa para enxugar gastos”, algo que vereadores como Landmark Rios (PT) atribuem à “falta de gestão” da prefeita.

Enquanto a prefeitura se debate em auto-cobranças e listas de devedores mínimos, o contribuinte campo-grandense assiste a essa peculiar performance de gestão fiscal. Resta saber se o próprio Município conseguirá pagar suas dívidas com o próprio Município, ou se entrará para a lista dos inadimplentes que a Sefin tão diligentemente publica. A saga do auto-cobrador continua, e o contribuinte, como sempre, é o espectador pagante.

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